
Um dos principais temas de debate na política ocidental é o aumento do custo de vida urbano, especialmente da valorização imobiliária. Com o aumento dos preços dos imóveis, as gerações mais jovens veem o “sonho da casa própria” cada vez mais distante. Nos Estados Unidos, por exemplo, a idade mediana dos “compradores de primeira viagem” saltou de 28 anos em 1991 para 40 anos em 2025, segundo a NAR (Associação Nacional de Corretores de Imóveis).
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O problema do custo de vida tem atraído a atenção dos políticos populistas, que se aproveitam da frustração da população para promover políticas demagógicas. Em Nova Iorque, o prefeito Zohran Mamdani propõe o congelamento dos aluguéis e o aumento da taxação de imóveis de luxo de não residentes para solucionar parte do problema fiscal e habitacional da cidade. Em 2025, os eleitores de Berlim chegaram a aprovar um referendo para a expropriação de imóveis residenciais de grandes grupos corporativos.
Contudo, todas essas iniciativas populistas são contraproducentes. Afinal, não estão sendo implementadas políticas para aumentar a oferta de imóveis. Pelo contrário, essas medidas só afastam investidores, que passam a temer a violação de seus direitos de propriedade. Do ponto de vista político, é sempre mais fácil atacar um vilão do que resolver o problema.
Florianópolis tem tudo para trilhar o mesmo caminho da “crise de moradia” que as grandes cidades do mundo enfrentam hoje. Dados de abril de 2026 da FipeZAP indicam que Florianópolis possui o segundo maior preço por metro quadrado entre as capitais brasileiras (R$ 13.208), 35% acima da média nacional. Nos últimos 10 anos, o preço médio do metro quadrado em Florianópolis cresceu 109,6%, enquanto a média nacional foi de 41,1%.
Esse crescimento acelerado dos preços é fruto de um descompasso entre oferta e demanda. A demanda por imóveis aumentou em virtude do aumento do fluxo migratório para a cidade. O Censo de 2022 revela que a população brasileira cresceu 6,3% entre 2010 e 2022. Contudo, a população de Florianópolis saltou 27,53%. Do lado da oferta, as restrições geográficas de uma ilha repleta de vastas áreas de preservação e a política de zoneamento estrita limitaram o crescimento da oferta.
Grande parte das restrições ao uso e ocupação do solo de Florianópolis visa à proteção do meio ambiente. Contudo, há uma ironia cruel nessa história. As restrições que supostamente limitam a construção acabam por aumentar o número de construções irregulares. O próprio Plano Diretor de Florianópolis reconhece que o Sul da Ilha cresceu mais de 70% em 20 anos, boa parte dele de forma irregular, sem tratamento de esgoto e sem fiscalização. Ou seja, a regulação rígida não preservou a natureza. Apenas garantiu uma política redistributiva às avessas, aumentando o valor dos imóveis daqueles que já possuíam residência e fechando as portas para novos compradores. Infelizmente, esse é um problema que a prefeitura e a câmara de vereadores não podem enfrentar sozinhas, pois muitas das decisões que impedem o desenvolvimento habitacional de Florianópolis decorrem de legislações e de órgãos federais, bem como de medidas do Judiciário e do Ministério Público que dificultam o aumento da oferta de imóveis.
Entretanto, há exemplos de como sair dessa armadilha caso as diferentes instituições públicas cooperem. Auckland, na Nova Zelândia, é uma cidade costeira com limitações geográficas semelhantes às de Florianópolis, que, em 2016, aprovou uma reforma que liberalizou três quartos de sua área residencial para a construção de média e alta densidade. O resultado? Uma onda de novas construções e uma desaceleração dos aluguéis.
Singapura é um exemplo ainda mais radical e instrutivo. A ilha de 733 km² (Florianópolis possui 675 km²), sem recursos naturais, abriga mais de 6 milhões de habitantes. Esse adensamento populacional foi fruto de decisões políticas acertadas, tomadas logo após a independência do país, na década de 1960. O governo de Lee Kuan Yew fez a seguinte escolha: em vez de restringir a construção para “proteger” a cidade, investiu pesadamente no planejamento da oferta habitacional e na verticalização da cidade. Hoje, mais de 80% da população da cidade-estado possui moradia própria, em um território um pouco maior do que o de Florianópolis. Tudo isso foi alcançado enquanto a cidade se transformava de um lugar poluído e caótico em uma das mais verdes e sustentáveis do mundo. Ou seja, as limitações geográficas não determinaram o destino da cidade. A qualidade de suas instituições foi o fator determinante do seu sucesso.
Florianópolis pode continuar sendo uma cidade bonita, mesmo crescendo. A questão é se as lideranças da cidade estão dispostas a remover os entraves regulatórios que transformam escassez artificial em privilégio permanente. Caso nada seja feito, Florianópolis corre o risco de virar refém do mesmo discurso demagógico que prospera em Nova Iorque e Berlim: o de culpar o capitalismo pelo custo de vida, enquanto a causa real continua sendo as próprias políticas excludentes de zoneamento.
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