
Todos os brasileiros estão preocupados com as eleições de outubro. Trata-se de uma das eleições mais decisivas para definir os rumos institucionais e econômicos do país. No entanto, enquanto os brasileiros estão com os olhos fixados nas eleições presidenciais, uma decisão tomada em Washington pode ter um impacto significativo nos juros do seu financiamento, no valor do câmbio, e no apetite dos investidores para alocar mais recursos no Brasil – e o nome de Kevin Warsh está diretamente envolvido nisso.
Clique aqui e receba as notícias do Tudo Aqui SC e da Jovem Pan News no seu WhatsApp
Na próxima semana, o Senado americano deve votar a nomeação de um novo presidente para o Federal Reserve (Fed), o Banco Central american. Queira-se ou não, a realidade é que o novo presidente do Fed deve ter um impacto maior no bolso do brasileiro do que qualquer candidato à presidência da República.
Para entendermos essa realidade, é importante nos voltarmos para a literatura econômica. A economista Hélène Rey, professora da London Business School, vem desenvolvendo estudos que estão subvertendo os manuais universitários de economia. Rey explica que é uma ilusão a visão tradicional de que os países poderiam conquistar “independência monetária” preservando o livre fluxo de capitais por meio de um câmbio flutuante. Na realidade, existe um ciclo financeiro global – sincronizado em fluxos de capital, crédito e preços de ativos – cujo maestro é o Federal Reserve. Ou seja, não importa o regime cambial adotado: o Banco Central do Brasil não possui independência plena em suas decisões. A política monetária brasileira reage fundamentalmente às decisões do Fed.
Os economistas Valentina Bruno e Hyun Song Shin, em suas pesquisas, explicam como a dominância do Fed funciona. Basicamente, os grandes bancos globais captam recursos em dólar e os emprestam ao redor do mundo, incluindo o Brasil. Quando o Fed reduz os juros, os bancos ampliam sua alavancagem e tomam mais riscos. Assim, o crédito flui generosamente para os países emergentes: empresas brasileiras tomam mais crédito, o real se valoriza e o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos cai. Em resumo, é uma maré que levanta todos os barcos.
No entanto, quando a maré baixa, o mecanismo se inverte. Se o Fed sobe os juros, os bancos globais contraem seus balanços, o crédito seca e o custo de financiamento sobe. O ponto central é que isso acontece independentemente do que o Brasil faz. O mecanismo é cego: não distingue países bem geridos de países mal administrados. É apenas o resultado de uma decisão tomada em Washington.
É aqui que Kevin Warsh se apresenta como uma potencial boa notícia para o Brasil. Seu projeto para o Fed combina cortes graduais de juros com o desenvolvimento de novos indicadores de inflação que capturem os ganhos “desinflacionários” da inteligência artificial. Juros americanos em queda significam capital migrando para países emergentes, fortalecendo moedas como o real e ajudando nosso banco central a reduzir os juros domésticos.
O risco de Kevin Warsh para o Brasil não está em suas intenções, mas na execução de toda a sua agenda de reformas do Fed. Seu plano de eliminar os sinais antecipados sobre juros e reduzir o balanço trilionário do Fed ao mesmo tempo que corta juros é uma mudança radical de paradigma para o banco central americano. Se o mercado duvidar da eficácia dessa combinação de políticas monetárias, a incerteza se converte em prêmio de risco. Afinal, quando os Estados Unidos espirram, o mundo fica gripado. Um cenário de incerteza sobre a economia americana significa câmbio pressionado e juros mais altos no Brasil, independentemente do que aconteça em Brasília.
Seu voto em outubro será importante. No entanto, a maior variável da economia brasileira nos próximos anos não será decidida em Brasília. Será decidida no Senado americano na próxima semana.
Me siga no Instagram!
Estarei de volta em breve