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Dívida oculta das Big Techs ameaça função social da contabilidade

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PorPorJoão Victor da Silva 3 meses atrás 4 Min de Leitura
Estudo da Nikkei Asia indica que as grandes empresas de tecnologia dos EUA possuem cerca de US$ 1,65 trilhão em dívidas não registradas em seus balanços. A contabilidade desempenha um papel fundamental no funcionamento da economia. Ela busca corrigir uma das principais falhas de mercado: a assimetria de informação. O profissional contábil faz isso ao elaborar os demonstrativos financeiros de entidades, relatórios que traduzem externamente os dados internos dessas entidades. A partir deles, bancos, investidores, governo e sociedade conseguem avaliar a saúde das empresas para decidir investimentos, identificar riscos e coibir a sonegação. Sem esses sinais, o mercado enxerga no escuro. No entanto, nem sempre a contabilidade de uma entidade revela sua situação financeira real, seja por fraudes, seja por subterfúgios regulatórios. Um estudo recente do Nikkei Asia, um dos principais veículos de jornalismo econômico da Ásia, revela que as grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos estão se endividando para realizar investimentos em larga escala em inteligência artificial. Contudo, boa parte dessas dívidas não está sendo reportada nos balanços das empresas. De acordo com o estudo, estima-se que as “Big Techs” possuam US$ 1,65 trilhão em dívidas ocultas. Isso acontece porque, de acordo com as normas contábeis americanas, contratos de arrendamento de data centers ainda não operacionais e de equipamentos, como GPUs e servidores, pendentes de entrega, são classificados fora do balanço. O grande problema dessa prática é que, embora esteja em conformidade com as regras contábeis, ela amplifica a assimetria que a contabilidade deveria mitigar. Como resultado, investidores decidem sem conhecer os riscos reais do ambiente empresarial. Pior: quando o mercado desconfia dos números, exige um prêmio de risco maior, o custo do capital sobe e o investimento recua. A desconfiança, portanto, não é um problema apenas moral — ela freia o crescimento. A “engenharia contábil”, inclusive, está associada à ocorrência de crises econômicas e recessões. Em 2001, a gigante americana de energia Enron utilizou SPEs (Entidades de Propósito Específico) para transferir dívidas e ativos desvalorizados para fora de seu balanço consolidado. Quando a fraude veio à tona, abalou-se a confiança no mercado acionário americano e na gigante de auditoria Arthur Andersen, responsável por auditar seus balanços. Esse evento, em plena recessão de 2001, agravou um momento já frágil da economia americana. A crise financeira de 2008 também teve como uma de suas origens o uso de subterfúgios contábeis legais que criaram um risco sistêmico catastrófico para a economia americana. Nesse caso, os bancos originavam empréstimos imobiliários de baixa qualidade e os transferiam para “Veículos de Propósito Específico” fora de seus balanços. Esses “veículos” então empacotavam empréstimos imobiliários em títulos financeiros, que eram comercializados no mercado. Quando os juros começaram a subir nos EUA, a inadimplência aumentou e os preços desses títulos começaram a cair. Como esses ativos estavam espalhados pelo sistema bancário global e fora dos balanços dos grandes bancos, surgiu uma crise de desconfiança no mercado. Afinal, ninguém sabia quais eram os bancos realmente insolventes. Recentemente, o Brasil também registrou casos de fraude contábil que afetaram negativamente a imagem de seu mercado de capitais. O caso da Americanas foi o mais notável, com um rombo de mais de R$ 20 bilhões decorrente de uma operação de “risco sacado”, na qual a empresa registrou uma dívida bancária como dívida com fornecedores em seu balanço. Em 2020, a IRB Brasil, maior resseguradora do país, viu suas ações desvalorizarem em mais de 90% após precisar corrigir seus balanços, que indicavam rentabilidade muito acima da média do setor, com base em lançamentos contábeis não recorrentes e em regras contábeis questionáveis. Existe, porém, uma distinção crucial. Enron e Americanas foram fraudes. Ao contrário, a contabilidade das Big Techs está em plena conformidade com as normas americanas, e os valores constam das notas explicativas. E é justamente aí que mora o perigo mais insidioso: não há crime a punir nem culpado a processar. A opacidade da dívida é permitida pela própria regra contábil. Uma fraude se descobre e se pune; uma regra falha se perpetua. Por isso, esses casos demonstram que reguladores e órgãos de classe precisam garantir que a contabilidade cumpra sua função social de informar. A confiança é a condição elementar para uma economia de mercado funcional. E a história mostra que regras legais, porém opacas, costumam preceder as crises que abalam os mercados.
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