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Häagen-Dazs se soma à lista de empresas que estão deixando ou reduzindo suas operações no Brasil

Burocracia, insegurança jurídica, criminalidade, infraestrutura precária e má gestão pública estão afastando empresas internacionais do Brasil.

Häagen-Dazs se soma à lista de empresas que estão deixando ou reduzindo suas operações no Brasil

Na semana passada, a General Mills, multinacional americana do setor de alimentos, anunciou o fim da distribuição do sorvete Häagen-Dazs no Brasil após 29 anos no país. O movimento faz parte da decisão da empresa de encerrar suas operações no Brasil, com a venda de marcas como Yoki e Kitano, bem como de suas fábricas em Minas Gerais e no Mato Grosso, ao Grupo 3Corações. A justificativa oficial é um “plano de reformulação de portfólio”.

Essa reformulação não saiu de graça. Pelo contrário. A General Mills reconheceu uma perda contábil de US$ 1,03 bilhão decorrente da venda da unidade brasileira. Ademais, o relatório financeiro anual de 2026 da General Mills revela que a empresa pretende focar-se em mercados com melhores perspectivas de crescimento rentável a longo prazo.

A saída da General Mills do Brasil ilustra um padrão que ganhou força nos últimos anos. Pouco antes, uma das maiores seguradoras do mundo, a Prudential Financial, colocou sua operação brasileira à venda para focar em regiões com margens mais atrativas, seguindo o caminho trilhado no setor financeiro por HSBC, Citi e Liberty Seguros. O esvaziamento atinge múltiplos setores: a Ford encerrou a produção nacional em 2021, após um século no país; Sony, LG, Roche e Eli Lilly deixaram de fabricar localmente; Makro e Walmart deixaram o varejo. Em quase todos os casos, os ativos foram vendidos a grupos locais, o que deixa o país é o capital estrangeiro e a concorrência que ele impõe.

A saída dessas empresas é um contrassenso econômico do ponto de vista estritamente teórico. O normal seria que o capital fluísse dos países ricos para os países em desenvolvimento, pois é justamente nesses países que deveria haver maior retorno sobre o investimento. Contudo, isso geralmente não acontece. O fenômeno ficou conhecido como “paradoxo de Lucas”, em referência ao Prêmio Nobel de Economia Robert Lucas Jr. Segundo ele, o capital não flui para países mais pobres porque o capital humano é menor e os mercados de capitais são imperfeitos, com risco político embutido. A literatura institucionalista acrescentou mais um mecanismo para explicar esse paradoxo: regulações que protegem as elites locais da concorrência estrangeira.

A análise de Lucas explica muito bem o êxodo de empresas do Brasil. Aqui, os economistas referem-se a esse problema como “Custo Brasil”. Segundo o Observatório do Custo Brasil, organizado pelo Movimento Brasil Competitivo e MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), o “Custo Brasil” é de aproximadamente R$1,7 trilhão ao ano. Esse é o custo adicional que as empresas pagam para enfrentar os entraves burocráticos, econômicos e estruturais que encarecem suas operações em relação à média da OCDE.

Alguns dirão que o Brasil segue atraindo capital. É verdade: o investimento direto no país somou US$ 77,7 bilhões em 2025, o maior valor desde 2018. Mas a composição importa mais do que o volume. O capital que entra busca recursos naturais, concessão regulada e mercado interno cativo; o que sai é a manufatura. Desenvolvimento, porém, não se constrói sobre a renda proveniente de recursos naturais, e sim sobre a indústria e os serviços de alto valor agregado.

A burocracia, a insegurança jurídica, a criminalidade, a infraestrutura precária, o baixo nível educacional e a má gestão pública contribuem para o subdesenvolvimento brasileiro. Em um mundo globalizado, com grande facilidade de mover capitais, essas deficiências brasileiras tornam o país ainda mais vulnerável. Para multinacionais como a General Mills, a conta é simples: investe-se onde o capital rende mais e está exposto a menos risco.

Se o próximo governo quiser reverter esse êxodo, terá de encarar as reformas microeconômicas que seus antecessores adiaram. Enquanto isso não vier, seguiremos vendo as prateleiras se esvaziando, uma por uma. Capital não tem ideologia; apenas busca retorno e segurança.

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