Sem embaixadores: o problema não é ideologia, é poder

A ausência de embaixadores brasileiros na Argentina e nos Estados Unidos não é fruto de divergências ideológicas; é o sintoma de um país que perdeu a capacidade de impor custos a quem o pressiona

Sem embaixadores: o problema não é ideologia, é poder

Nos últimos anos, o Brasil se apequenou no cenário internacional. O momento mais baixo ficou evidente no início de agosto, quando o país ficou simultaneamente sem embaixadores em Washington e em Buenos Aires. Ou seja, hoje não temos representação diplomática de alto nível junto aos segundo e terceiro maiores parceiros comerciais do Brasil, que também são parceiros estratégicos históricos.

O governo vê essa deterioração como fruto de decisões ideológicas dos presidentes de direita da Argentina e dos Estados Unidos, que enxergam o Brasil como uma das últimas barreiras ao alinhamento da América Latina a uma agenda geoestratégica conjunta. Contudo, esse posicionamento não resiste ao escrutínio dos fatos.

É verdade que parte das medidas adotadas contra o Brasil foi publicamente associada à nossa conjuntura política doméstica. Mas isso explica o gatilho, não a questão de fundo: por que o Brasil não consegue impor custo algum a quem o pressiona? Hoje, o Brasil não é desafiado por ter um governo de esquerda. Somos desafiados porque somos um país vulnerável.

A vulnerabilidade brasileira é fruto de décadas de políticas públicas equivocadas que erodiram nossa capacidade militar, possibilitaram o avanço do narcotráfico e colocaram o Brasil em condição de dependência econômica em relação ao maior adversário dos Estados Unidos, a China.

Os dados são inequívocos. De acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, o Brasil gastou com defesa apenas 1,1% do PIB em 2025, menos da metade da média global de 2,5%. A composição desse orçamento agrava o quadro: segundo os dados orçamentários brasileiros, cerca de 42% dos recursos vão para inativos (aposentadorias e pensões) e 32% para despesas com pessoal da ativa. Quase três quartos do orçamento de defesa estão comprometidos com folha, sobrando pouco mais de um quarto para tudo o mais — equipamento, manutenção, treinamento e reposição. Em outras palavras, as Forças Armadas se converteram em um grande sistema previdenciário. Não por acaso, o próprio ministro da Defesa afirmou que, em uma eventual invasão americana, teríamos de “abrir o portão”.

No âmbito da segurança pública, a situação é ainda mais assustadora. Estudo publicado em periódico da Cambridge University Press indica que cerca de 50,6 milhões de brasileiros vivem em áreas sob controle territorial de grupos armados criminosos. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que essas facções já se infiltraram na economia formal: da receita anual estimada em R$ 146 bilhões que movimentam, R$ 61 bilhões vêm da venda de combustíveis e lubrificantes e R$ 57 bilhões vêm da venda de bebidas. Ou seja, cerca de 80% do faturamento do crime organizado no país já provém de mercados legais. O Estado não exerce plenamente o controle nem sobre seu território, nem sobre sua economia.

Até no comércio internacional, o Brasil está vulnerável. No primeiro semestre de 2026, quase 32% das exportações brasileiras tiveram a China como destino, e 27% das importações vieram de lá. Cerca de metade do superávit comercial brasileiro depende hoje de um único comprador. Isso é fruto de uma estrutura econômica que prende o Brasil às commodities e deixa nosso setor industrial incapaz de conquistar novos mercados. E a própria China tem como meta ampliar sua produção doméstica de minério e de alimentos, o que tende a reduzir a demanda justamente pelos produtos em que somos mais concentrados.

Todos esses fatores evidenciam que o Brasil vem se enfraquecendo no plano internacional. E a fraqueza, como dizia o ex-secretário de Defesa americano Donald Rumsfeld, é provocadora. Afinal, política é sobre poder, e, na política internacional, o poder é definido principalmente por capacidades materiais: força militar e força econômica. É exatamente nessas duas dimensões que o Brasil vem regredindo.

O governo tenta se esquivar desse cenário desconfortável, com o intuito puramente eleitoral, por meio do discurso de defesa da soberania. Contudo, a soberania brasileira não está sendo ameaçada pela Argentina nem pelos Estados Unidos. Nós mesmos somos os responsáveis por seu enfraquecimento, ao sucatear as Forças Armadas, entregar parte do território e da economia ao crime e aprofundar a dependência comercial em relação ao maior adversário do mundo ocidental.

Argentina e Estados Unidos pressionam o governo brasileiro para avançar com suas estratégias de segurança nacional, que abrangem todo o Hemisfério Ocidental. A nova doutrina americana tem como alvo o crime transnacional e a redução da presença chinesa na região. Ao deixar de participar de iniciativas como o Escudo das Américas e ao defender o fortalecimento dos BRICS e o enfraquecimento do dólar, o governo brasileiro se coloca em clara oposição aos objetivos americanos e, ironicamente, aos seus próprios.

O resgate da soberania brasileira não consiste em posar de durão diante dos Estados Unidos e da Argentina. Consiste em incorporar à política externa aquilo que também é do nosso interesse: recuperar capacidade militar, enfrentar o crime organizado, fortalecer a economia e reduzir a dependência de adversários do Ocidente.

Enquanto isso não for feito, o Brasil seguirá sendo aquilo que as duas cadeiras vazias em Washington e em Buenos Aires já anunciam: um país grande demais para ser ignorado e fraco demais para ser levado a sério.

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