
Estar em Portugal é perceber, com certo desconforto, a quantidade de brasileiros exercendo trabalhos duros e, muitas vezes, abaixo de suas expectativas ou qualificações. Em obras, restaurantes, serviços gerais e atividades de apoio, há sempre um sotaque brasileiro tentando reconstruir a vida longe de casa.
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Conversei com um mineiro que vive há sete anos em Ericeira, trabalhando como pedreiro. Falou da dureza do trabalho, do peso da rotina e da distância do Brasil, mas também deixou claro que, mesmo assim, encontrou em Portugal uma possibilidade de vida mais previsível do que aquela que tinha em seu próprio país. Esse é o dado mais triste: quando o cidadão prefere enfrentar o subemprego no exterior a permanecer em sua terra natal, é sinal de que algo profundo se rompeu.
O Brasil, apesar de sua dimensão, riqueza e potencial humano, parece cada vez menos capaz de oferecer segurança, empregos justos, estabilidade e esperança a uma grande parte de sua população.
A corrupção, a má gestão, a insegurança e a ausência de um projeto nacional consistente vão corroendo a confiança do povo. Cada desvio de dinheiro público não é apenas um crime administrativo, é uma escola que não melhora, um hospital que não atende, uma estrada que não existe e uma oportunidade de trabalho que nunca chega.
A presença de tantos brasileiros em Portugal não deve ser vista apenas como escolha individual. Em muitos casos, é consequência direta de um país que falhou em garantir dignidade aos seus trabalhadores. São pessoas que não partiram por falta de amor ao Brasil, mas porque o Brasil deixou de lhes oferecer uma perspectiva minimamente justa de futuro.
O verdadeiro colapso de uma nação talvez não aconteça de uma vez, com grande ruído. Ele se revela lentamente, quando seus cidadãos começam a procurar, em outros lugares, a dignidade que deveriam encontrar em casa.
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