
Os tempos atuais revelam alianças políticas cada vez mais contraditórias. No Brasil e em outras partes do mundo, segmentos da esquerda passaram a manifestar apoio ostensivo à causa palestina e, em alguns casos, relativizaram ou defenderam grupos como o Hamas, adotando uma postura abertamente hostil a Israel.
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Nas manifestações, multiplicam-se bandeiras palestinas, lenços tradicionais e palavras de ordem que, muitas vezes, deixam de distinguir a legítima defesa dos direitos do povo palestino do apoio ideológico a organizações fundamentalistas e violentas.
Paradoxalmente, os mesmos movimentos políticos apresentam-se como defensores intransigentes dos direitos das mulheres, das minorias sexuais e da população LGBTQIA+. É justamente nesse ponto que surge uma contradição difícil de contornar.
O Hamas não é um movimento progressista. Trata-se de uma organização político-religiosa fundada sobre princípios islâmicos fundamentalistas, incompatíveis com diversas pautas culturais defendidas pela esquerda ocidental. A tolerância à diversidade sexual, a liberdade religiosa, a igualdade entre homens e mulheres e a autonomia individual não integram o seu horizonte político.
Essa contradição tornou-se ainda mais evidente após o atentado ocorrido nas proximidades da celebração do Orgulho LGBTQIA+ em Berlim. Um veículo foi lançado contra a multidão e, segundo as autoridades alemãs, as evidências iniciais apontam para uma motivação terrorista islamista.
Não se tratava, portanto, do estereótipo esperado por parte daqueles que enxergam toda ameaça às minorias exclusivamente na extrema-direita branca. O suspeito possuía histórico de radicalização islâmica e já havia tentado integrar o Estado Islâmico.
O episódio não autoriza a criminalização de palestinos, árabes ou muçulmanos em geral. Também não permite atribuir coletivamente a uma religião os atos de um extremista. Obriga, entretanto, a reconhecer que o fundamentalismo islâmico representa uma ameaça concreta aos valores liberais e às liberdades individuais que a esquerda afirma defender.
É legítimo solidarizar-se com civis palestinos, condenar excessos militares e defender uma solução humanitária para o conflito. Outra coisa, completamente diferente, é transformar organizações extremistas em símbolos de resistência, ignorando sua violência, seu autoritarismo e sua incompatibilidade com os direitos humanos.
Ao abraçar indiscriminadamente movimentos que rejeitam os seus próprios valores, parte da esquerda ocidental constrói uma aliança baseada não em princípios comuns, mas na existência de um adversário compartilhado. A oposição a Israel e aos Estados Unidos parece suficiente para encobrir todas as divergências morais e políticas.
Mas alianças sustentadas apenas pelo ódio ao mesmo inimigo são frágeis. Quando desaparece o adversário comum, surge a verdadeira natureza de cada aliado.
No limite do fio da faca, as contradições tornam-se visíveis: aquele que hoje marcha ao seu lado pode não reconhecer amanhã o seu direito de continuar existindo como é. Muitas vezes o inimigo não está do outro lado da manifestação. Está caminhando ao lado, carregando a mesma bandeira por razões inteiramente diferentes.






