A ilusão da canetada: Por que o fim da escala 6×1 pode custar caro ao Brasil

No longo prazo, medidas populistas tendem a falhar e prejudicam aqueles que diziam proteger - e a proposta de proibir a escala 6x1 é uma delas

Resumo da Notícia

A proposta de proibição da escala 6x1 parte de um diagnóstico legítimo, mas chega a uma solução equivocada: instituir por lei o que só a produtividade pode entregar de forma duradoura

escala 6x1
Em vez de atacar as raízes da baixa produtividade no Brasil, o governo mira no populismo ao querer proibir a escala 6×1. Foto: Divulgação.

Existe um ditado popular que diz: “se trabalhar fosse bom, não precisariam te pagar por isso.” Por trás da ironia, há um incômodo genuíno. Trabalhar seis dias por semana, na escala 6×1, com pouco tempo para a família, o descanso ou qualquer projeto pessoal, é uma realidade dura para milhões de brasileiros. Esse desconforto é legítimo e seria desonesto ignorá-lo.

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O problema não está no diagnóstico; está na receita. É precisamente sobre esse tipo de frustração que o populismo prospera: instrumentaliza o sofrimento real em uma narrativa política simples e oferece a solução mais sedutora, que costuma ser a mais imediata: uma lei, um decreto, uma canetada, que . O resultado é a acumulação de medidas que prometem melhorar a vida do trabalhador, sem enfrentar as causas reais do problema.

No longo prazo, no entanto, essas medidas tendem a falhar justamente onde mais importa: prejudicam aqueles que diziam proteger. O populismo tem uma lógica política impecável, mas uma lógica econômica desastrosa. E a proposta de proibir a escala 6×1, como apresentada hoje, é uma construção absolutamente populista.

As discussões sobre a redução da jornada de trabalho são válidas. A tendência dos últimos séculos é clara: as pessoas estão trabalhando cada vez menos tempo. Essa dinâmica é resultado do aumento da produtividade do trabalho. Com mais tecnologia, maior acesso à informação, melhora nos níveis de instrução e aperfeiçoamento das técnicas de trabalho, os trabalhadores conseguem produzir mais em menos tempo. Esse entendimento não é nada novo. O economista britânico John Hicks, em sua Teoria dos Salários, da década de 1930, já demonstrava que salários reais mais altos e jornadas de trabalho menores emergem naturalmente de economias mais produtivas, não de decretos.

No Brasil, ganhamos menos do que trabalhadores de outros países e trabalhamos mais horas, pois somos menos produtivos. Isso não é culpa, em si, do trabalhador brasileiro, mas sim das deficiências estruturais do Brasil: baixo nível de escolaridade, elevados custos de produção, burocracia, infraestrutura de má qualidade, entre tantos outros elementos que compõem o “Custo Brasil”.

Em vez de atacar as ineficiências econômicas do país, o governo brasileiro avança com a velha tática populista de resolver as demandas populares com a famosa “canetada”, abolindo de vez a escala 6×1. Politicamente, esse é o caminho mais fácil. Afinal de contas, resolver as deficiências estruturais do país leva décadas, mas os resultados eleitorais precisam ser conquistados agora.

Contudo, a experiência internacional deveria servir de alerta. Em 2000, a França instituiu a semana de 35 horas de trabalho com o objetivo de melhorar o bem-estar dos trabalhadores e de criar empregos por meio do “compartilhamento de trabalho”. Um estudo dos economistas Marcello Estevão e Filipa Sá mostrou que a legislação não funcionou como mecanismo de coordenação das preferências dos trabalhadores por menos horas. Pelo contrário: diante da jornada reduzida imposta compulsoriamente, muitos buscaram um segundo emprego ou migraram para pequenas empresas ainda não sujeitas à lei.

Os autores concluíram que a medida não gerou emprego líquido e levou à demissão de trabalhadores mais antigos para reduzir custos. Vale registrar que outros pesquisadores identificaram ganhos pontuais de bem-estar, o que reforça a ideia de que o tema é complexo demais para ser resolvido por uma única lei. O que a experiência francesa deixa claro é que restringir as jornadas não substitui o aumento da produtividade como motor de melhoria real das condições de trabalho.

Entretanto, o debate sobre jornadas, seja no Brasil ou na França, desvia a atenção de um problema mais urgente. Ironicamente, enquanto o Congresso debate a escala 6×1, a ameaça real ao trabalhador brasileiro já tem nome: inteligência artificial. Assim como as inovações do passado, a IA não vem para acabar com os empregos em termos absolutos. O surgimento do automóvel eliminou os cocheiros, mas multiplicou os postos de trabalho na indústria automotiva.

Da mesma forma, a IA vai transformar profissões, reduzir a demanda por algumas e criar outras. Segundo estimativas do Banco Mundial e da Organização Internacional do Trabalho, até 37% dos empregos no Brasil estão expostos à IA generativa. É dessa ameaça que deveríamos estar falando. O Brasil precisa se preocupar com a “escala 0x7”: a do desemprego tecnológico, em vez da 6×1. Sem investimento em requalificação profissional e em educação técnica, nenhuma PEC vai proteger esses trabalhadores.

Há, por fim, uma questão de princípio. Em uma sociedade livre, quem deseja trabalhar mais, por necessidade ou por ambição, deve ter esse direito assegurado. Quem deve decidir quanto trabalhar é o próprio trabalhador; jamais o governo.

A redução da jornada de trabalho é um caminho natural. Ela virá com o aumento de produtividade. O governo pode acelerar essa transformação do mercado de trabalho reduzindo as ineficiências da economia brasileira. Caso insista em reduzir a jornada 6×1 na “canetada”, quem pagará a conta serão os próprios trabalhadores que a medida prometia proteger.

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