
A propaganda sempre exerceu papel central na formação da personalidade social de cada cidadão. Não por acaso, consolidou-se no imaginário popular a velha máxima de que “a propaganda é a alma do negócio”. Durante muito tempo, essa frase serviu para explicar a força da publicidade na venda de produtos, marcas, serviços e até guerra. Hoje, porém, ela parece ter ultrapassado os limites do consumo tradicional para alcançar algo muito mais profundo: a própria construção das identidades humanas.
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No mundo informatizado, ideias não apenas circulam. Elas são absorvidas, reproduzidas e transformadas em modos de vida. As redes sociais deixaram de ser simples ambientes de comunicação para se tornarem verdadeiros laboratórios de comportamento, onde opiniões, estilos, crenças e preferências são difundidos em velocidade impressionante. O que antes era apenas uma mensagem publicitária, hoje pode se converter em pertencimento, em estética, em causa, em tribo.
Surgem, nesse cenário, agrupamentos cada vez mais específicos. São os atletas de fim de semana, os amantes de motocicleta, os religiosos, os céticos, os defensores de teorias alternativas, os que acreditam em fantasmas, discos voadores ou em qualquer outra forma de explicação para o mundo. Cada grupo encontra, nas redes, não apenas informação, mas confirmação, acolhimento e identidade.
A propaganda, direta ou disfarçada de conteúdo, passa a organizar comportamentos e a oferecer ao indivíduo uma sensação de escolha, pertencimento e diferenciação. Essa nova etapa da vida humana revela uma profunda transformação comportamental. O cidadão contemporâneo parece cada vez menos preso à antiga ordem social, marcada por padrões mais rígidos de família, profissão, religião, classe e comunidade. Em seu lugar, emerge um sujeito mais fragmentado, mais exposto a estímulos e mais disposto a construir sua própria imagem a partir daquilo que consome, compartilha e defende publicamente.
A questão central é que, nesse universo de informações permanentes, nem sempre é possível distinguir com clareza onde termina a vontade individual e onde começa a influência externa advinda da propaganda. O desejo de ser autêntico pode, muitas vezes, nascer justamente de modelos amplamente divulgados por algoritmos, campanhas, influenciadores e comunidades digitais. A liberdade de escolha, embora real, passa a conviver com mecanismos sofisticados de indução.
Vivemos, portanto, uma era em que a propaganda não vende apenas produtos. Vende estilos de vida, causas, medos, certezas, indignações e pertencimentos. A alma do negócio, agora, parece ser também a alma do comportamento. E, nesse novo mundo, cada cidadão passa a ser, ao mesmo tempo, consumidor, divulgador e produto de uma imensa engrenagem simbólica que molda a forma como pensamos, desejamos e nos apresentamos diante da sociedade.
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