Guerra do Irã: Quem tem as cartas na mesa?

A análise revela que, apesar da percepção de poder, o Irã enfrenta grave crise econômica, enquanto os EUA mantêm controle militar e resiliência.

Resumo da Notícia

O Irã enfrenta uma grave crise econômica devido ao bloqueio naval dos EUA, que afeta suas exportações de petróleo e capacidade de sustentação militar. Enquanto isso, os Estados Unidos mostram resiliência econômica, amplificando a pressão sobre o regime iraniano.

O Irã quer fazer você acreditar que tem a faca e o queijo — não tem.

Guerra do Irã: Quem tem as cartas na mesa?

Por João Victor da Silva

Desde o início das operações militares americanas e israelenses contra o Irã, circula na imprensa e no mundo acadêmico a narrativa de que os Estados Unidos estão sob pressão crescente para encerrar o conflito e que os iranianos teriam vantagem de barganha nas negociações por controlarem o Estreito de Ormuz. Contudo, a tese de “Irã no controle” não resiste a uma análise atenta dos fatos.

Um dos grandes erros dos analistas é considerar que a guerra de hoje teria um impacto devastador na economia americana, como ocorreu na década de 1970 com os dois choques do petróleo. Diferentemente dos anos 1970, os Estados Unidos não dependem mais do petróleo árabe. Pelo contrário. Hoje, os Estados Unidos são o maior produtor de petróleo do mundo e dezenas de petroleiros estão rumando para a costa americana. Enquanto o preço da gasolina nos Estados Unidos subiu para cerca de 1 dólar por litro – um valor alto para o padrão americano –, esse valor é menos da metade do que os alemães e os coreanos pagam.

Os Estados Unidos também estão insulados de grande parte dos choques internacionais por terem uma economia continental e diversificada. Diferentemente da percepção de muitos, a economia americana é pouco exposta ao comércio internacional. De acordo com dados do Banco Mundial, o comércio internacional representa apenas 25,4% do PIB americano, o quarto menor do mundo. Como referência, a média dos países de alta renda é superior a 60% do PIB.

Os próprios dados da inflação nos Estados Unidos indicam uma situação mais benigna nos preços do que o esperado. A inflação do núcleo, que exclui itens voláteis como alimentos e energia, está em 2,6%, próxima das mínimas registradas desde 2021. Ademais, o S&P 500, o principal índice de ações americano, já opera em níveis acima dos pré-guerra. Ou seja, o mercado não está precificando colapso americano; está precificando resiliência.

Quem efetivamente está em apuros econômicos são os aliados e adversários dependentes do petróleo que flui pelo Estreito de Ormuz. A Europa enfrenta risco de recessão e já se comenta a possibilidade da inflação superar 5% no continente. A China, que importa volume expressivo de petróleo por rotas que passam pelo Estreito, vê sua cadeia produtiva ameaçada. Já os aliados do Golfo Pérsico são os mais afetados e pediram linhas de swap cambial — instrumento pelo qual bancos centrais trocam moedas entre si para garantir liquidez em dólares e evitar turbulências financeiras — aos Estados Unidos.

Do lado iraniano, o cenário é devastador. O bloqueio naval americano aos portos do Irã tem um custo estimado entre 435 e 500 milhões de dólares por dia ao regime. Com capacidade de armazenamento de petróleo de apenas duas semanas, o Irã logo precisará interromper a extração, o que causará danos permanentes à sua infraestrutura de produção. Dado que cerca da metade das exportações de petróleo financia as próprias Forças Armadas do país, o regime logo ficará sem dinheiro para sustentar o que sobrou de suas forças militares. A “Operação Fúria Econômica” do Tesouro americano está estrangulando o acesso do Irã a dólares e impedindo suas exportações, gerando uma crise financeira e acelerando a inflação no país.

Militarmente, a superioridade americana e israelense é inequívoca. Quase toda a cúpula do regime iraniano foi eliminada, a marinha foi destruída e os céus do país ficaram sob supremacia americana e israelense durante todo o período de bombardeio. O analista político Marc Thiessen, em sua coluna no jornal Washington Post, lembra que um regime incapaz de apresentar uma proposta unificada após 40 dias de bombardeios e bloqueio não barganha de uma posição de força. O regime está fragmentado e apenas sobrevivendo.

Thiessen ainda destaca que os Estados Unidos iniciaram o cessar-fogo antes de “terminar o trabalho”, uma vez que havia 14 dias de missões pendentes. Ou seja, os Estados Unidos podem reiniciar imediatamente as hostilidades contra o Irã e pressionar ainda mais o regime. Aliás, Washington ainda detém a opção de destruir a Ilha de Kharg, por onde passa 90% do petróleo iraniano, o que representaria a opção nuclear da guerra econômica.

Há ainda um fator político mal compreendido. Muitos consideram que Trump está pressionado politicamente pela impopularidade do conflito. Com as eleições de meio de mandato se aproximando, muitos consideram que o relógio está contando contra ele. O argumento ignora que Trump está em seu segundo e último mandato constitucional, o que o libera por completo da lógica da reeleição. Sua vulnerabilidade real e específica é outra: evitar uma maioria democrata no Senado que viabilize um processo de impeachment. Nesse quesito, o cenário permanece administrável. A Câmara dos Representantes já era considerada perdida para os republicanos antes mesmo do início do conflito — essa não é uma novidade que a guerra criou. O Senado, por sua vez, deve permanecer com maioria republicana. E Trump só precisa manter a maioria no Senado para evitar pressões por um impeachment.

Em última instância, a pressão do relógio não está em Washington. Está em Teerã. Ninguém está pedindo linhas de swap aos iranianos. Quem tem as cartas na mesa é quem todos buscam quando a situação aperta.

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