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Ganhos econômicos da Maratona Internacional de Floripa vão muito além dos R$ 100 milhões movimentados pelos participantes

A literatura econômica indica que as maratonas urbanas deixaram de ser meramente eventos atléticos e passaram a ser ferramentas de desenvolvimento econômico.

Ganhos econômicos da Maratona Internacional de Floripa vão muito além dos R$ 100 milhões movimentados pelos participantes

Nos dias 29 e 30 de agosto, Florianópolis foi palco da Maratona Internacional de Floripa. O evento reuniu mais de 19 mil inscritos, provenientes de todos os estados da federação e de 26 países. É verdade que houve transtornos, sobretudo os bloqueios no trânsito e o barulho no fim da madrugada, e não faz sentido fingir que eles não existem: há custo de policiamento, de sinalização e de horas perdidas por quem precisou se deslocar naqueles dois dias. Ainda assim, os benefícios superam, e muito, esses custos.

De acordo com os organizadores, a estimativa é de que o evento tenha movimentado cerca de R$ 100 milhões. Convém tratar esse número com cautela. Estimativas desse tipo costumam ser infladas por desconsiderarem os chamados “efeitos de substituição”. Afinal, grandes eventos podem afugentar o turista convencional, realocar o consumo dos moradores locais e simplesmente deslocar a data da viagem de corredores que visitariam a cidade de qualquer maneira.

Há, contudo, duas razões para crer que esse efeito é pequeno no caso específico da prova de Florianópolis. A primeira é o calendário: a maratona ocorre no fim de agosto, em plena baixa temporada, quando a rede hoteleira opera com capacidade ociosa. A segunda é o perfil do participante. Estudos empíricos mostram que o maratonista tem um padrão de consumo distinto do turista convencional e do público de eventos esportivos locais: viaja em grupo, permanece mais tempo na cidade (3 a 5 dias) e gasta, em média, mais do que os demais visitantes.

Inflada ou não a estimativa de R$ 100 milhões, o ponto central é outro: a consolidação de Florianópolis como destino de corrida tende a gerar benefícios de longo prazo. Maratonas fortalecem a marca da cidade. Um estudo de pesquisadores espanhóis sobre a Maratona de Burgos ressalta que esse tipo de evento combina atributos tangíveis, como infraestrutura, rotas históricas e cartões-postais, e intangíveis, como valores esportivos, cultura e hospitalidade, o que contribui para projetar uma imagem positiva e fortalecer a reputação do destino.

O economista Gregory T. Papanikos, ao analisar os efeitos econômicos das maratonas como eventos de turismo esportivo, destaca que cidades capazes de organizar provas dessa escala sinalizam ao mundo que estão “abertas para negócios”. A visibilidade, em última instância, também atrai investimento para setores que nada têm a ver com o esporte.

Há ainda um impacto fiscal positivo que eventos como maratonas podem gerar para os governos. É verdade que nenhuma prova isolada altera o nível de atividade física de uma população. O que muda é o ecossistema em que a recorrência desses eventos se manifesta: clubes de corrida, assessorias esportivas, calendário de provas menores e a rotina de treino que antecede a maratona ao longo de meses.

E a alternativa, o sedentarismo, tem um custo expressivo. Um estudo global publicado na revista The Lancet estimou, de forma conservadora, que a inatividade física custou quase US$ 54 bilhões aos sistemas de saúde em 2013. Aos custos diretos somam-se os indiretos: uma pesquisa da RAND Corporation calculou que, se a população mundial inativa passasse a cumprir as diretrizes mínimas da OMS, de 150 minutos semanais, o PIB global poderia ser até US$ 446 bilhões por ano maior até 2050. Estimular a atividade física é, portanto, política pública de contenção do gasto em saúde e, ao mesmo tempo, de crescimento econômico.

Apostar em maratonas é apostar em um mercado em franco crescimento. Levantamento da consultoria McKinsey de 2025 estima que o mercado global de bem-estar (wellness) já alcança US$ 2 trilhões. Diversas pesquisas apontam na mesma direção: as novas gerações consomem cada vez menos álcool e demandam cada vez mais produtos e experiências associados à saúde.

À medida que Florianópolis se consolida como destino esportivo, os ganhos se espalham para outros setores. Beneficia-se o setor público, que tende a gastar menos com o tratamento de doenças evitáveis. Beneficia-se o setor privado, e não apenas o turismo, porque uma imagem forte da cidade atrai investimento.

Há, por fim, um detalhe que separa a maratona dos megaeventos esportivos e que costuma passar despercebido: aqui não há estádio a construir nem instalações que fiquem ociosas depois da festa. O palco é a própria via pública. É justamente esse baixo custo de capital que elimina o principal sumidouro de recursos por trás das promessas econômicas frustradas de Copas e Olimpíadas. É por isso que, no caso das maratonas, os benefícios superam com folga os transtornos que o evento acarreta.

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