
A ilusão das análises políticas e econômicas tradicionais é acreditar que grandes crises decorrem de um único problema e se desenvolvem de forma gradual e previsível. As grandes crises são, na maioria das vezes, eventos não-lineares. Hoje, o Brasil opera à beira do ponto de ruptura. O próximo presidente vencedor das eleições herdará uma panela de pressão com três válvulas obstruídas que, ao se abrirem, podem desencadear uma grave crise econômica, social e institucional.
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O primeiro desafio é fiscal. Nos últimos anos, as regras fiscais do Brasil foram vilipendiadas e perderam completamente a credibilidade. A dívida bruta saltou de 71,7% do PIB, em dezembro de 2022, para 82,5% em julho de 2026: quase 11 pontos percentuais em menos de quatro anos. Sem mudanças no panorama fiscal, a expectativa é que essa trajetória explosiva continue.
A economia, diferentemente do que muitos pensam, não é uma ciência exata. Trata-se de uma ciência da ação humana. Basta que famílias, empresas e investidores deixem de vislumbrar mudanças críveis no quadro fiscal para que a confiança na economia se perca de imediato. Essa desconfiança é o gatilho que leva ao descontrole macroeconômico: inflação, fuga de capitais, disparada do câmbio e dos juros, culminando em recessão.
O segundo desafio é a infiltração do crime organizado na economia formal e nas instituições de Estado. As facções criminosas deixaram de ser apenas um problema de segurança interna. Elas possuem estruturas sofisticadas, capazes de lavar dinheiro na economia formal. Ainda mais perigosa é a capacidade dessas facções de se infiltrarem em instituições de todos os Poderes e níveis de governo.
Esse avanço do crime organizado sobre a economia e as instituições flerta com a consolidação de um narcoestado. Isso não afeta apenas a nossa ordem interna. Como o crime se tornou uma atividade transnacional, o Brasil pode se tornar alvo de pressões e sanções da comunidade internacional. O Brasil, ao ficar de fora do “Escudo das Américas”, coalizão de 17 países liderada pelos Estados Unidos para combater os cartéis e o narcoterrorismo, e por colidir com a política externa americana, corre o risco de se tornar um refúgio para essas organizações criminosas.
O terceiro desafio brasileiro é a crise do Poder Judiciário. A sessão do STF de 15 de setembro, sobre as suspeitas envolvendo Alexandre de Moraes no caso Banco Master, foi suspensa em meio a embates entre ministros. O episódio solidificou a desconfiança da sociedade em relação a todo o Poder Judiciário: da Suprema Corte aos tribunais locais.
Questionamentos sobre o ativismo judicial, a concentração de poderes em inquéritos notoriamente sem respaldo legal e o avanço sobre direitos fundamentais geram um clima de profunda imprevisibilidade e tensão na sociedade. E, quando o árbitro de um país perde a legitimidade e o respeito, a própria ordem social se desestabiliza e a credibilidade externa desaba. Quem cumprirá as leis e investirá em um país em que a mais alta Corte passa a ser suspeita de funcionar como um balcão de negócios?
Esses três desafios não operam de forma isolada. Eles interagem e se retroalimentam. A insegurança jurídica eleva o prêmio de risco do país, pressiona os juros e torna a dívida ainda mais cara. O crime infiltrado na economia formal sonega impostos e corrói a arrecadação, agravando o desequilíbrio fiscal. E o risco de pressões externas afugenta o capital, desvaloriza o câmbio e alimenta a inflação.
Por isso, é imprescindível que os eleitores votem em candidatos que tenham consciência desses desafios e capacidade técnica de enfrentá-los. Quem apresenta uma regra fiscal crível? Quem tem um plano concreto contra a lavagem de dinheiro das facções? Quem se compromete a conter os abusos do Poder Judiciário? Sem essas respostas, o Brasil tem tudo para enfrentar uma ruptura econômica e institucional sem precedentes.
No dia 4 de outubro, no 1º turno das eleições, a sociedade terá a chance de impedir que essa panela de pressão exploda.






