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Por que o aumento da escolaridade não se traduz em ascensão social?

Enquanto a sociedade acreditar que diploma e conhecimento são equivalentes, dificilmente veremos avanços na mobilidade social

Por que o aumento da escolaridade não se traduz em ascensão social?

O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. O coeficiente de Gini, divulgado pelo Banco Mundial, nos coloca entre os piores do planeta nesse quesito. Existem diversos fatores históricos e estruturais por trás disso, e a lista é longa. Mas um dos poucos pontos de consenso na literatura econômica é que a educação é o principal mecanismo de mobilidade social.

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Infelizmente, o avanço educacional brasileiro não tem promovido a ascensão dos segmentos de renda mais baixos. A Pesquisa Viver nas Cidades: Desigualdades e Mobilidade Social, realizada pelo Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com o Ipsos-Ipec e divulgada na semana passada, mede o problema. Entre os entrevistados, 73% afirmam ter escolaridade superior à dos pais. Apenas 46% acreditam ter renda maior do que a que seus pais tinham na mesma idade. O levantamento ouviu 3.500 pessoas pela internet, em dez capitais, e mede a percepção, não a renda apurada. Ainda assim, a distância entre os dois números é grande demais para ser considerada ruído.

Questionado justamente sobre essa distância, o diretor da Fundação Grupo Volkswagen, Vitor Hugo Neia, explicou que “tem mais gente com grau de instrução mais elevado, então se afunilam as oportunidades. E o mercado hoje exige mais”. Igor Pantoja, coordenador de relações institucionais do Instituto Cidades Sustentáveis, disse algo parecido: os melhores empregos e oportunidades são capturados por poucos.

À primeira vista, os dois têm razão. O problema é que descrevem o sintoma. Nos últimos 40 anos, a escolaridade média da população saltou de cerca de 4 para 9 anos de estudo. O Censo da Educação Superior registrou, em 2024, a marca inédita de 10,2 milhões de matrículas na graduação. E a produtividade do trabalho fora do setor primário segue estagnada. Como explicar esse contrassenso?

A teoria do capital humano, de Gary Becker, prevê que a escolaridade eleva a produtividade porque a escola incorpora capacidade produtiva a quem a frequenta. Nunca tantos brasileiros passaram. Se o efeito previsto por Becker estivesse em operação, algo já teria se manifestado nos dados de produtividade, ainda que de forma moderada. Nada apareceu. A explicação que sobra é desconfortável: o que o sistema produz em escala é certificação, e quase nada de capital humano. O Banco Mundial tem uma medida, os anos de escolaridade ajustados pela aprendizagem, desenhada para captar essa diferença: ela desconta do tempo de escolaridade o que não foi aprendido. Pelo Índice de Capital Humano da instituição, um brasileiro nascido em 2019 chega aos 18 anos com 60% do potencial produtivo que teria sob boas condições de educação e saúde.

O contrassenso é fruto de uma política educacional mal desenhada, sustentada por uma cultura de bacharelismo enraizada na sociedade. As pessoas querem o diploma, não necessariamente o conhecimento. E o poder público responde a essa demanda invertendo a ordem das prioridades: gasta pouco onde o retorno é maior e muito onde o retorno é menor.

Isso contraria a literatura econômica sobre o assunto. James Heckman, economista americano laureado com o Nobel de Economia, demonstrou que o investimento em educação rende mais quanto mais cedo é feito na vida da criança. Afinal de contas, é a partir de uma base sólida que ela consegue assimilar os conteúdos que virão depois de forma mais eficaz. Creche, pré-escola e alfabetização na idade certa são o que torna possível qualquer formação posterior.

Hoje, invertemos a lógica de Heckman. O gasto por aluno no ensino básico no Brasil corresponde a cerca de 30% da média dos países da OCDE, enquanto no ensino superior atingimos 80%. Como o diploma virou o instrumento oficial de mobilidade social, reduziu-se a exigência nas duas pontas e proliferaram cursos de qualidade duvidosa, subsidiados por financiamento público ao estudante. Metade das matrículas de graduação já está no ensino a distância, e 79% delas se concentram na rede privada. A oferta de certificados cresceu muito mais rapidamente do que a capacidade de ensino.

Quando um engenheiro brasileiro termina o dia dirigindo Uber, o problema raramente é a falta de vagas na engenharia. A Pesquisa Global de Escassez de Talentos, do ManpowerGroup, mostra que 80% das empresas brasileiras enfrentam dificuldade para contratar, contra 72% na média mundial; no setor de serviços profissionais, científicos e técnicos, a proporção é de 85%. O mercado quer o engenheiro. O que ele recebe, muitas vezes, é um diploma de engenharia. Enquanto tratarmos as duas coisas como sinônimas, continuaremos produzindo os números da pesquisa: 73% de avanço escolar e 46% de avanço de renda. A mobilidade social não começa na universidade. Começa quando a criança dá seus primeiros passos.

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