A atual corrida presidencial não é uma mera disputa de políticas públicas antagônicas; é uma disputa pelo regime político do país.

Não costumo fazer apologia ao voto, pois acredito que o debate de ideias é o melhor caminho para o desenvolvimento de uma sociedade a longo prazo. Meu foco sempre foi a exposição de ideias em oposição às visões populistas que dominam o debate público nacional. No entanto, o cenário eleitoral atual exige a quebra desse protocolo.
A atual corrida presidencial não é uma mera disputa de políticas públicas antagônicas entre direita e esquerda. Trata-se de uma disputa pelo regime político do país. O Brasil enfrenta hoje três grandes ameaças que vão muito além de divergências corriqueiras sobre a alocação do orçamento público.
A primeira, e a mais grave, é a ameaça institucional. Como bem alertou o economista Pedro Jobim em seu recente artigo, o projeto de poder do PT busca o domínio das instituições nacionais. Nas últimas décadas, assistimos a um preocupante processo de hegemonia e aparelhamento que avança sobre a administração pública, o sistema de ensino, a imprensa e, de forma especialmente alarmante, o Judiciário. Esse domínio cultural, social e institucional visa criar uma estrutura de poder invencível, que ameaça suprimir qualquer capacidade de oposição política e intelectual no futuro. Restam, praticamente, apenas as redes sociais como trincheira da oposição. E Lula ameaça rotineiramente “regulamentar” as redes sociais, ou seja, dominar o último espaço disponível para a pluralidade do debate público.
A segunda ameaça é a econômica. A continuidade de políticas populistas, a ausência de regras fiscais críveis e o aumento contínuo da burocracia estatal prometem levar o Brasil a um estrangulamento econômico inevitável. A dívida bruta do governo atingiu 82,9% do PIB em agosto, o maior nível desde a pandemia. Era de 71,7% quando o atual governo assumiu. Só com juros, o país gasta quase 9% do que produz em um ano, e o mercado já projeta dívida acima de 90% do PIB em 2028. Para estabilizar a dívida, o governo precisaria alcançar um superávit primário de cerca de 2% do PIB.
Essa conjuntura é extremamente perigosa. Quando o Estado gasta sistematicamente mais do que arrecada e abandona as regras fiscais, a percepção de risco e a dívida pública explodem. Estamos caminhando para um quadro econômico mais perigoso do que o do Governo Dilma, com famílias, empresas e o governo mais endividados do que estavam naquele momento. E, como muitos devem se lembrar, o resultado da crise do Governo Dilma foi recessão, juros altos e inflação galopante.
A terceira ameaça reside na segurança pública. O avanço do crime organizado deixou de ser apenas uma questão de domínio territorial em áreas periféricas. Hoje, o crime avança sobre a economia formal e as instituições públicas. Essa simbiose entre a criminalidade e as estruturas econômicas formais destrói o ambiente de negócios, corrói o Estado de Direito e afasta os investimentos de longo prazo necessários ao desenvolvimento do país. A Operação Carbono Oculto, por exemplo, revelou que o PCC movimentou R$ 52 bilhões por meio de distribuidoras de combustíveis, fintechs e fundos de investimento na Faria Lima. Ademais, já há múltiplos casos de infiltração do crime organizado na política e nas instituições do Estado, pavimentando o caminho para que o Brasil se torne um narcoestado.
A combinação dessas três ameaças — captura institucional, populismo econômico e expansão do crime organizado — exige uma resposta da sociedade. A história nos oferece exemplos pedagógicos e trágicos de momentos em que a sociedade se isenta de suas responsabilidades. A Venezuela, por exemplo, trilhou essa mesma trilha rumo ao abismo autoritário e à ruína econômica, em grande parte porque uma parcela significativa de sua sociedade preferiu não participar do processo eleitoral ou se recusou a reconhecer os fortes indícios da derrocada que se avizinhava.
Momentos críticos da história, no entanto, exigem pragmatismo. Gostaria que houvesse, na presidência, alguém com a convicção e a coragem reformista de uma política como a de Margaret Thatcher. O Brasil precisa de alguém capaz de promover uma profunda transformação econômica, enfrentando a mentalidade populista e a cultura do privilégio que imperam em nosso país. Contudo, como os ingleses dizem, esse tipo de anseio é puro wishful thinking (“pensamento ilusório”).
A realidade é que, no próximo domingo, teremos Flávio Bolsonaro e Lula nas urnas. A maturidade política nos exige escolher a melhor opção disponível na realidade posta. Como pontuou Winston Churchill, a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras já experimentadas. Em uma democracia, a perfeição não está no cardápio de escolhas. O que existe é o imperativo cívico de evitar o pior. Apoiar um candidato imperfeito, mas que ofereça resistência ao projeto hegemônico em curso, não é uma concessão de princípios. Trata-se de um ato de sobrevivência republicana. Em 2026, abster-se não será uma demonstração de pureza ideológica, mas sim de perigosa omissão. Por isso, meu voto será para Flávio Bolsonaro.






