Interesse privado x interesse público 

Por: Ricardo Halla
em 13/04/2026 às 19:21 - Atualizado há 10 horas.
iron man florianópolis
Foto: Reprodução.

O Ironman surgiu no Havaí, em 1977, criado por John e Judy Collins como um desafio que combinava três provas de resistência existentes na ilha de Oahu: a travessia de natação Waikiki Roughwater, a prova de ciclismo Around-Oahu e a Maratona de Honolulu. O que começou como um desafio esportivo tornou-se um fenômeno global.

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Trata-se de uma prova de resistência extrema exigindo preparo físico e mental fora do comum do atleta. Com o passar do tempo, esse evento ultrapassou fronteiras e passou a ser realizado em diversas partes do mundo, inclusive em Florianópolis. É importante esclarecer desde logo: este comentário não tem qualquer intenção de desmerecer o esporte ou o esforço dos atletas que se dedicam a ele. 

O ponto de reflexão está em outro lugar, na relação entre o evento, os interesses privados envolvidos em sua organização e o uso intensivo de estruturas públicas. Eventos dessa natureza não acontecem em qualquer lugar. Eles dependem de cenários privilegiados: boas estradas para o ciclismo, áreas amplas para a corrida e praias adequadas para a natação. Florianópolis, com sua geografia singular, tornou-se um palco ideal para esse tipo de competição.

O que chama atenção, contudo, é o modelo econômico que se estabelece em torno desses eventos. Os organizadores captam vultosos patrocínios de grandes marcas, sobretudo ligadas ao universo esportivo, e cobram dos atletas valores consideráveis de inscrição, que, segundo se comenta, giram próximo a mil dólares por participante. 

E então surge uma pergunta inevitável: o que, exatamente, é oferecido como contrapartida à coletividade? Na prática, grande parte da estrutura utilizada para a realização do evento é pública. São praias, avenidas e rodovias que pertencem à coletividade e que, durante a realização da prova, são temporariamente isoladas ou restringidas ao uso exclusivo da competição. A força Pública também é acionada para o auxílio deste evento.

Isso naturalmente provoca impactos relevantes no cotidiano da cidade. O trânsito é alterado, bairros ficam parcialmente isolados e milhares de cidadãos, que financiam a manutenção dessas estruturas por meio de impostos, precisam organizar suas rotinas para acomodar um evento cuja finalidade é, em grande medida, econômica. 

Acrescenta-se ainda um aspecto simbólico: a duplicação da SC-401 foi aguardada pela população por cerca de trinta anos, período em que os cidadãos suportaram congestionamentos diários enquanto financiavam, por meio de impostos, a obra que finalmente ampliaria a mobilidade no principal acesso ao norte da ilha.

Não deixa de ser paradoxal que, justamente quando essa infraestrutura passa a servir ao interesse público, ela seja temporariamente fechada para viabilizar um evento privado, impedindo que a própria população que pagou e esperou por ela  possa utilizá-la.

Não se ignora que eventos dessa natureza possam trazer visibilidade turística e algum retorno indireto à cidade. Contudo, permanece o paradoxo: um empreendimento privado que gera receitas expressivas utilizando, como principal ativo, a infraestrutura pública custeada pelo contribuinte.

A reflexão que se impõe não é contra o esporte, nem contra a cidade sediar grandes eventos. O verdadeiro ponto de debate é a necessidade de transparência e equilíbrio na relação entre o interesse público e o interesse privado. Quando o espaço público se transforma em palco de exploração econômica, é legítimo perguntar: quem ganha, quem paga e quem, de fato, se beneficia?

No final das contas, o desenho dessa equação parece bastante claro: quem arrecada é o empresário que organiza o evento; quem paga, direta ou indiretamente, são os atletas que desembolsam valores elevados para participar e, sobretudo, os cidadãos que cedem, ainda que involuntariamente, suas ruas, suas praias sua mobilidade e serviços para que essa engrenagem funcione.