Escândalo do Master revelou aquilo que os brasileiros fingiam não saber

O rei está nu! A expressão parece clichê, mas sua origem diz muito sobre o Brasil. No conto dinamarquês “A Roupa Nova do Rei”, de Hans Christian Andersen, dois tecelões trapaceiros convencem um monarca vaidoso de que lhe confeccionaram uma roupa magnífica, invisível aos tolos e aos incapazes para o cargo que ocupam. Por medo de parecerem tolos ou incapazes, a corte e o povo fingem enxergá-la, até que uma criança grita que o rei está nu.
A fábula retrata o Brasil dos últimos sete anos: grande parte da sociedade decidiu fechar os olhos, enquanto a intelligentsia recorreu a truques semânticos para minar Jair Bolsonaro e seu movimento político.
Bolsonaro e seus apoiadores foram acusados de participar de um movimento autoritário, principalmente com base em narrativas e fatos distorcidos para se encaixarem à tese. Quase todos os dias, jornalistas, intelectuais e entidades de classe afirmavam que a democracia estava em risco. Diziam também que era preciso proteger as “instituições de Estado”.
Hoje sabemos quem ocupava o topo dessas instituições: o escândalo do Banco Master, com rombo estimado em R$ 47 bilhões, tirou Dias Toffoli da relatoria do caso após a revelação de que uma empresa da qual é sócio vendeu parte de um resort a um fundo ligado ao cunhado de Daniel Vorcaro. Já a Polícia Federal aponta ao menos oito encontros entre o banqueiro e Alexandre de Moraes, cuja esposa tinha um contrato de R$ 131 milhões com o banco. E revela mensagens em que Vorcaro pede ao ministro que reforce “com Andrei e Paulo” (Rodrigues, chefe da PF, e Gonet, procurador-geral) para não deixar “ninguém de baixo fazer uma sacanagem”. Os envolvidos negam irregularidades, mas, quando o banqueiro investigado pela maior fraude bancária do país é íntimo de um ministro do STF a ponto de pedir que ele acione o chefe da polícia que o investiga e o procurador que deveria acusá-lo, o nome disso não é república.
Se o rei sempre esteve nu, por que tanta gente insistiu em ver a roupa? Porque muitos embarcaram na fábula da “defesa das instituições” por ideologia ou por medo. Os movidos pela ideologia passaram a viver no que Eric Voegelin chamou de “segunda realidade”: rejeitando o mundo como ele é, fabricaram um sistema de pensamento que confirmasse sua visão de mundo.
No Brasil, essa “segunda realidade” opôs as “forças do progresso e da virtude” ao “mal absoluto”. Bolsonaro, um líder de direita com erros e acertos, passou a ser tratado como o próprio agente da destruição da civilização.
Os que agem por medo também deixaram de enxergar a realidade. Hannah Arendt, estudiosa dos regimes nazista e soviético, mostrou que os totalitarismos não se impuseram apenas pela força bruta, mas também pela adesão de massas socialmente desenraizadas, seduzidas por movimentos que se diziam libertadores contra o regime vigente e contra inimigos fabricados. Em meio à pandemia e a uma cobertura midiática que apresentava o governo como uma ameaça à democracia, muitos entraram nessa cruzada libertadora e aceitaram ignorar os fatos.
Seria legítimo rejeitar o governo Bolsonaro e desejar substituí-lo. Jamais deveriam ter sido aceitos, porém, os excessos de Alexandre de Moraes no Inquérito das Fake News e na condenação, com penas elevadíssimas, dos chamados “golpistas do 8 de janeiro”. Aquele dia foi um ato de vandalismo, condenável e punível como tal, não um golpe de Estado: os invasores não tinham armas nem meios para tomar o poder, Bolsonaro nem sequer estava no Brasil e nenhuma tropa saiu dos quartéis para apoiá-los.
Não por acaso, o inquérito persecutório que passou mais de sete anos nas mãos de Moraes acaba de lhe ser retirado, dias depois de o ministro tentar usá-lo contra André Mendonça, que expôs as mensagens de Vorcaro. Merval Pereira, da GloboNews, em um raro surto de lucidez, admitiu: “Nós, que apoiamos um inquérito ilegal porque era para defender a democracia, temos que fazer um mea-culpa. A gente errou.”
No fim, o caso Master só mostra o que muitos fingiam não ver: o Brasil não é uma república; é uma cleptocracia. E isso não começou agora. A República mal havia nascido quando o Encilhamento misturou emissão desenfreada de moeda, especulação e favores a apadrinhados do governo. Mais recentemente, vieram o mensalão, o petrolão, desvendado pela Lava Jato (cujas provas da Odebrecht o mesmo Toffoli anulou), e agora o Master. Os personagens mudam, mas o jeito de agir continua o mesmo.
A cleptocracia brasileira persiste porque deixamos que truques de linguagem nos enganem. “Democracia”, “instituições” e “república” não definem um país só porque estão na Constituição ou porque jornalistas e acadêmicos repetem essas palavras o tempo todo. Defender as instituições é fundamental para o funcionamento de uma sociedade livre. O erro está em confundir essa defesa com um passe livre para que seus membros usem a linguagem como proteção e façam o que quiserem. Criticar um ministro não é atacar o Supremo. Atacar o Supremo é usá-lo para proteger um ministro.
A direita também é responsável por essa confusão. Muitas vezes, preferiu atacar o “sistema”, o “Judiciário” ou o “STF” em vez de mostrar, com fatos, quem realmente abusa do poder. Com isso, deu aos seus adversários o álibi perfeito. Elas passaram a usar a toga da instituição e a tratar qualquer crítica como um ataque à democracia.
No conto dinamarquês, o grito da criança não encerra o desfile. O rei desconfia de que o povo sabe o que está acontecendo, mas o desfile continua. Os camareiros continuam segurando a cauda que não existe. É isso que Brasília ensaia fazer. Troca-se um relator, promete-se agir “sem precipitação” e o cortejo continua.
O fato é que não haverá república enquanto um ministro puder manter por anos um inquérito de objeto indefinido, calar adversários com uma canetada e frequentar a mesa de um banqueiro que pagava milhões ao escritório de sua esposa.
Nesta terça-feira, nove ministros do STF vão decidir se Moraes será investigado. O rei está nu. Falta saber quantos ainda vão segurar a cauda e quantos terão coragem de gritar.






