Ao atacar o Irã, os Estados Unidos atingem a China

Por: João Victor da Silva
em 03/03/2026 às 15:34 - Atualizado há 2 horas.

Quem pensa que os EUA se perdem no Oriente Médio enquanto a China avança comete um erro de leitura profundo. Washington está jogando exatamente onde quer.

Por João Victor da Silva

            O ataque americano e israelense ao Irã, à primeira vista, pode parecer um conflito ideológico que não serve aos interesses americanos. Afinal, o que ganham os Estados Unidos atacando um país cerca de 10 mil quilômetros de seu território, com uma economia em crise e um governo cada vez mais fraco?

            A narrativa oficial dos Estados Unidos inclui impedir a proliferação de armas nucleares, a proteção dos americanos e seus aliados, o combate ao terrorismo e a defesa dos direitos humanos. Todos esses pontos evidentemente são fatores contribuintes à decisão americana de atacar o Irã.

            Muitos especialistas consideram equivocada a decisão americana por julgarem que o foco da política externa americana deve ser a China. Entretanto, essa visão não se sustenta. O conflito entre os Estados Unidos e o Irã não é um desvio da ambiciosa “Grande Estratégia” americana de conter o avanço do poder chinês.

            Ao atacar o regime dos aiatolás, os Estados Unidos não estão apenas destruindo centrífugas nucleares e a produção de mísseis balísticos. Efetivamente, os Estados Unidos estão restringindo a influência chinesa no Oriente Médio e fechando a torneira que alimenta o seu parque industrial. Afinal de contas, a China foi responsável por comprar 80% das exportações iranianas de petróleo em 2025, adquiridas a preços abaixo do mercado internacional em decorrência das sanções. Ademais, a China possui diversos acordos de infraestrutura, cooperação tecnológica e alinhamento diplomático com o Irã — peças de um arco de influência que conecta o Golfo Pérsico ao Mar Vermelho e à Ásia Central.

            Essa lógica de asfixia energética e logística não se limita ao Golfo Pérsico. Ela ecoa com a mesma intensidade no Hemisfério Ocidental. As recentes ações americanas na Venezuela e a política de pressão máxima a Cuba são exemplos disso. Ao capturarem Nicolás Maduro, os Estados Unidos foram muito além de permitir uma transição de regime na Venezuela. Simultaneamente, os Estados Unidos passaram a efetivamente controlar a produção de petróleo venezuelana que antes era majoritariamente absorvida pela China e puseram fim à posição estratégica chinesa em Cuba e na Venezuela.

            Quanto à OTAN, muitos se equivocam quando acham que Trump está implodindo a “parceria transatlântica” com os europeus. Quando Trump exige que os europeus invistam mais em defesa, seu objetivo é permitir que a Europa consiga conter sozinha a Rússia. Isso permite que os Estados Unidos tenham mais recursos financeiros, políticos e militares disponíveis para desafiar a China.

            Portanto, o que parece um desvio de prioridades é, efetivamente, uma política coordenada. Ao golpear o Irã e salvaguardar o domínio do Hemisfério Ocidental, os Estados Unidos estão desmontando a rede de aliados, fornecedores de energia e bases avançadas que permitiriam que a China sustentasse uma longa rivalidade com os Estados Unidos. Trump não está distraído. Ao fim e ao cabo, está limpando o tabuleiro antes que o adversário fique forte demais.