Quem pensa que os EUA se perdem no Oriente Médio enquanto a China avança comete um erro de leitura profundo. Washington está jogando exatamente onde quer.

Por João Victor da Silva
O ataque americano e israelense ao Irã, à primeira vista, pode parecer um conflito ideológico que não atende aos interesses americanos. Afinal, o que ganham os Estados Unidos ao atacar um país a cerca de 10 mil quilômetros de seu território, com uma economia em crise e um governo cada vez mais fraco?
A narrativa oficial dos Estados Unidos inclui impedir a proliferação de armas nucleares, proteger os americanos e seus aliados, combater o terrorismo e defender os direitos humanos. Todos esses pontos, evidentemente, são fatores contribuintes para a decisão americana de atacar o Irã.
Muitos especialistas consideram equivocada a decisão americana por julgarem que o foco da política externa americana deve ser a China. Entretanto, essa visão não se sustenta. O conflito entre os Estados Unidos e o Irã não é um desvio da ambiciosa “Grande Estratégia” americana de conter o avanço do poder chinês.
Ao atacar o regime dos aiatolás, os Estados Unidos não estão apenas destruindo centrífugas nucleares e a produção de mísseis balísticos. Efetivamente, os Estados Unidos estão restringindo a influência chinesa no Oriente Médio e fechando a torneira que alimenta o seu parque industrial. Afinal de contas, a China foi responsável por comprar 80% das exportações iranianas de petróleo em 2025, adquiridas a preços abaixo do mercado internacional em decorrência das sanções. Ademais, a China possui diversos acordos de infraestrutura, cooperação tecnológica e alinhamento diplomático com o Irã — peças de um arco de influência que conecta o Golfo Pérsico ao Mar Vermelho e à Ásia Central.
Essa lógica de asfixia energética e logística não se limita ao Golfo Pérsico. Ela ecoa com a mesma intensidade no Hemisfério Ocidental. As recentes ações americanas na Venezuela e a política de pressão máxima contra Cuba são exemplos disso. Ao capturarem Nicolás Maduro, os Estados Unidos foram muito além de permitir uma transição de regime na Venezuela. Simultaneamente, os Estados Unidos passaram a efetivamente controlar a produção de petróleo venezuelana, antes majoritariamente absorvida pela China, e a pôr fim à posição estratégica chinesa em Cuba e na Venezuela.
Quanto à OTAN, muitos se equivocam quando acham que Trump está implodindo a “parceria transatlântica” com os europeus. Quando Trump exige que os europeus invistam mais em defesa, seu objetivo é permitir que a Europa consiga conter sozinha a Rússia. Isso permite que os Estados Unidos tenham mais recursos financeiros, políticos e militares disponíveis para desafiar a China.
Portanto, o que parece um desvio de prioridades é, efetivamente, uma política coordenada. Ao golpear o Irã e salvaguardar o domínio do Hemisfério Ocidental, os Estados Unidos estão desmontando a rede de aliados, fornecedores de energia e bases avançadas que permitiriam que a China sustentasse uma longa rivalidade com os Estados Unidos. Trump não está distraído. Ao fim e ao cabo, está limpando o tabuleiro antes que o adversário fique forte demais.

