
No primeiro semestre de 2026, a balança comercial brasileira de automóveis registrou déficit de US$ 5,32 bilhões, o maior resultado negativo da série histórica iniciada em 1997. As importações alcançaram US$ 7,79 bilhões, impulsionadas especialmente pela entrada de veículos chineses no mercado nacional.
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O problema não está na existência da concorrência estrangeira. A competição é saudável quando ocorre em condições minimamente equilibradas. O que não se pode admitir é que a indústria brasileira, submetida a uma das maiores cargas tributárias do mundo, elevados custos trabalhistas, juros altos, burocracia e infraestrutura deficiente, seja obrigada a competir com produtos provenientes de países que adotam políticas industriais agressivas, amplo financiamento estatal e produção em escala gigantesca.
Enquanto milhares de veículos importados chegam aos portos brasileiros, o governo demora a construir uma estratégia suficientemente clara para proteger a produção nacional e, ao mesmo tempo, incentivar a modernização tecnológica do setor. O imposto de importação sobre veículos elétricos e híbridos foi restabelecido gradualmente, chegando à alíquota de 35% apenas em julho de 2026.
Durante esse intervalo, as fabricantes estrangeiras tiveram tempo para antecipar embarques e formar grandes estoques no país. Há uma evidente contradição política. Embora governos de esquerda tradicionalmente defendam a proteção da indústria e do emprego nacionais, as medidas adotadas não impediram que produtos fabricados em economias politicamente próximas ao governo brasileiro ampliassem rapidamente sua participação no mercado interno.
Não se trata de impedir a entrada dos automóveis chineses, tampouco de negar os avanços tecnológicos e os benefícios que eles oferecem aos consumidores. Trata-se de exigir reciprocidade comercial, igualdade concorrencial e uma política industrial capaz de assegurar que parte relevante desses veículos seja efetivamente produzida no Brasil, com fornecedores nacionais, geração de empregos, transferência de tecnologia e recolhimento de tributos.
É justamente para antecipar riscos dessa natureza que existe o planejamento econômico. Um governo não pode observar passivamente o crescimento acelerado das importações e somente reagir depois que os portos estiverem abarrotados, as concessionárias abastecidas e a indústria nacional pressionada.
O déficit comercial não significa, isoladamente, que as fábricas brasileiras estejam prestes a fechar. A produção nacional, inclusive, apresentou crescimento no primeiro semestre. O dado, porém, representa um grave sinal de advertência. Se essa tendência não for enfrentada com inteligência, previsibilidade e equilíbrio, poderá produzir consequências conhecidas: redução de investimentos, fechamento de linhas de produção, demissões, enfraquecimento da cadeia de fornecedores e diminuição da arrecadação tributária.
A abertura comercial não pode ser confundida com ingenuidade econômica. País algum preserva sua indústria entregando o mercado interno sem exigir contrapartidas. Quando o governo falha em estabelecer condições equilibradas de concorrência, não é apenas uma empresa que perde espaço. Perdem o trabalhador, a arrecadação, a tecnologia nacional e a própria capacidade do país de decidir o seu futuro.






