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Lavando a alma

Resultado do primeiro turno das Eleições 2026 trouxe alívio e esperança para diversos catarinenses

Lavando a alma
Foto: Gerada por IA

Finalizado o primeiro turno das Eleições 2026, fica a sensação de que alguma coisa mudou no Brasil. Talvez não se possa dizer ainda que o país tenha definitivamente acordado, porque uma eleição somente se completa depois de todas as urnas e de todas as escolhas.

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Mas parece evidente que uma parcela expressiva da sociedade resolveu dizer que não aceita mais passivamente determinados modelos de condução política, econômica e administrativa. O resultado das urnas é eloquente.

Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno da eleição presidencial com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, levando a decisão para 25 de outubro.

Ao mesmo tempo, houve uma significativa expansão das forças conservadoras no Congresso, particularmente no Senado. É uma manifestação política que não pode simplesmente ser reduzida a radicalismo, saudosismo ou extremismo.

Existe um eleitorado conservador expressivo no Brasil e ele está reivindicando participação efetiva na definição dos rumos do país. Durante muitos anos, a direita brasileira carregou sobre si o estigma decorrente do regime militar.

Qualquer discurso mais enfático sobre segurança, autoridade, responsabilidade fiscal, livre iniciativa ou valores tradicionais rapidamente era associado a um passado autoritário. Essa simplificação parece perder força.

A direita contemporânea terá justamente o desafio de mostrar que conservadorismo democrático não significa autoritarismo, assim como defender ordem não significa desprezar liberdade. A esquerda, por sua vez, historicamente coloca maior ênfase na atuação do Estado, na redistribuição de renda, nas políticas públicas de proteção social e na redução das desigualdades.

São objetivos legítimos em uma democracia. O problema surge quando o Estado deixa de ser instrumento de organização social e passa a ocupar tamanho espaço que começa a sufocar justamente quem produz, investe, emprega e assume riscos.

Não há política social sustentável sem uma economia capaz de financiá-la. Antes de distribuir riqueza, é necessário produzi-la. Empresas, agricultores, profissionais, trabalhadores, empreendedores e investidores formam a engrenagem econômica que cria bens, serviços, empregos, salários e, inclusive, a arrecadação tributária que mantém o próprio Estado.

Um país não se torna próspero simplesmente aumentando a máquina pública, elevando impostos ou multiplicando programas de transferência. Proteção social é necessária, mas deveria funcionar principalmente como ponte para a autonomia, e não como destino permanente.

É justamente nesse ponto que o Nordeste, e particularmente a Bahia, oferece uma reflexão importante. Não me parece correto atribuir o voto de milhões de pessoas a qualquer suposta inferioridade intelectual. O problema é muito mais profundo: décadas de desigualdade, dependência econômica, baixa renda, estruturas políticas consolidadas e forte presença estatal ajudam a formar comportamentos eleitorais que se reproduzem ao longo do tempo.

A Bahia reelegeu Jerônimo Rodrigues, do PT, no primeiro turno, com 55,80% dos votos válidos, depois de quase duas décadas de governos estaduais consecutivos comandados pelo partido. É legítimo, entretanto, perguntar se tamanha fidelidade política corresponde aos resultados sociais alcançados.

O rendimento domiciliar mensal per capita da Bahia em 2025 foi de R$ 1.465, enquanto a média brasileira alcançou R$ 2.316. No Nordeste, a média foi de R$ 1.484.

São números que demonstram que a desigualdade regional continua enorme e que, independentemente das narrativas partidárias, ainda existe uma dívida gigantesca em produtividade, oportunidades e geração de renda. Também na segurança pública a realidade exige reflexão.

É justo reconhecer que houve redução dos indicadores baianos em 2025: os crimes violentos letais intencionais diminuíram 13,15%. Ainda assim, foram registradas 5.451 mortes violentas intencionais naquele ano, e a Bahia continua entre os estados com elevados índices de violência letal.

Portanto, reconhecer algum avanço não significa conformar-se com uma situação ainda extremamente grave. Essa discussão, entretanto, não deveria transformar brasileiros em inimigos uns dos outros. O Nordeste não é menos Brasil do que o Sul; a Bahia não é menos brasileira do que Santa Catarina; e um eleitor de esquerda não possui menor valor democrático do que um eleitor de direita.

O que podemos e devemos fazer é comparar resultados. Depois de décadas de determinadas escolhas políticas, os indicadores melhoraram na proporção das promessas realizadas? A população tornou-se mais independente do Estado? Houve crescimento sustentado de renda, educação, segurança e produtividade? Essas são perguntas legítimas.

A grande dicotomia contemporânea entre direita e esquerda talvez esteja justamente na compreensão acerca do papel do Estado. Uma vertente acredita que o poder público deve assumir protagonismo mais amplo na economia e na distribuição de seus resultados.

A outra entende que o Estado deve proporcionar segurança jurídica, infraestrutura, educação, saúde, segurança pública e condições para que a sociedade produza riqueza com maior liberdade. Minha convicção está muito mais próxima desta segunda visão. O Estado não deveria ser o senhor da sociedade. Deveria ser seu servidor.

E talvez seja exatamente esse sentimento que começa a aparecer nas urnas de 2026. O brasileiro que trabalha está cansado de ser tratado simultaneamente como contribuinte inesgotável e espectador impotente.

Paga imposto quando recebe, quando compra, quando vende, quando produz, quando emprega, quando possui um imóvel, quando abastece o automóvel e até quando transmite aos filhos aquilo que conseguiu construir durante a vida.

Em contrapartida, deseja algo elementar: que seu dinheiro seja administrado com responsabilidade. Há também um esgotamento moral. O país não pode normalizar denúncias, escândalos, desperdício de recursos públicos ou qualquer forma de apropriação daquilo que pertence à coletividade.

Independentemente do partido envolvido, corrupção não pode ser tratada como folclore nacional nem como simples efeito colateral da política. Dinheiro público não pertence ao governante. Pertence ao cidadão. Por isso, quando uma parcela cada vez maior do eleitorado fala em conservadorismo, família, segurança, responsabilidade fiscal, liberdade econômica e autoridade, talvez seja um erro interpretar essas palavras como simples slogans eleitorais.

Elas podem estar expressando uma demanda muito mais elementar: o desejo de reconstrução de referências que muitos brasileiros entendem terem sido enfraquecidas. Mas a direita também terá de provar sua competência. Não basta ser contra o PT.

Não basta vestir-se de verde e amarelo, falar em família e segurança ou apontar os erros da esquerda. Para transformar uma reação eleitoral em um projeto duradouro de país, precisará mostrar capacidade administrativa, responsabilidade institucional, compromisso democrático, equilíbrio fiscal e políticas concretas para crescimento, educação, infraestrutura e segurança.

O verdadeiro desafio não é derrotar a esquerda. É construir um Brasil melhor. Um Brasil no qual trabalhar valha a pena; empreender não seja um exercício de sobrevivência burocrática; produzir não seja tratado como pecado; o pobre encontre uma porta verdadeira de emancipação; o criminoso encontre um Estado firme; o contribuinte seja respeitado; a família possa viver segundo seus valores; e o poder público finalmente compreenda que não existe para dominar a sociedade, mas para servi-la.

Se o primeiro turno de 2026 estiver apontando nessa direção, então há razões para olhar o futuro com esperança. Talvez seja cedo para dizer que o Brasil mudou. Mas, para milhões de brasileiros, o domingo deixou ao menos uma sensação: a de estar lavando a alma.

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