O populismo impopular: por que as medidas do governo têm impacto limitado na sua aprovação?

A crença de que aumentar o gasto público tem apelo eleitoral é desafiada em um ambiente de dívida pública elevada e juros altos

Resumo da Notícia

A crença de que aumentar o gasto público tem apelo eleitoral é desafiada em um ambiente de dívida pública elevada e juros altos

O populismo impopular: por que as medidas do governo têm impacto limitado na sua aprovação?

“Nós todos sabemos o que precisa ser feito, só não sabemos como ser reeleitos depois de termos feito”. A famosa frase de Jean-Claude Juncker, dita enquanto presidente da Comissão Europeia, reflete um dos maiores paradoxos enfrentados pelas lideranças políticas: as decisões responsáveis, aquelas que geram benefícios de longo prazo, costumam acarretar custos e desconfortos imediatos para o eleitorado. O resultado? Os políticos, que têm como objetivo permanecer no poder, possuem todos os incentivos para postergar as decisões difíceis.

Hoje, o Brasil é vítima, novamente, do ciclo eleitoral. Em uma análise publicada recentemente pelo economista Marcos Mendes, foram avaliadas as medidas fiscais do governo federal de meados de 2025 a maio de 2026. A análise de Mendes revela um panorama preocupante. As 33 medidas fiscais adotadas pelo governo no período custarão aos cofres públicos R$ 215 bilhões. Para piorar, 61% desse total foram implementados por meio de contorcionismos regulatórios que driblam as regras fiscais de limitação de gastos. Contudo, 100% dessas medidas contribuem para o aumento da dívida pública.

Mendes ainda destaca que, para financiar parte do aumento de gastos, o governo vem recorrendo ao aumento de tributos da pior forma possível. 63% das novas receitas, correspondentes a R$ 68 bilhões, utilizam tributos de natureza regulatória com finalidade meramente arrecadatória, prejudicando, assim, a produtividade da economia e gerando maior insegurança jurídica no país.

Entretanto, essas medidas de expansão fiscal não têm sido suficientes para reverter os índices de desaprovação do governo. Pesquisas da AtlasIntel (instituto de pesquisa com um dos maiores níveis de acerto internacionalmente) revelam que, desde novembro do ano passado, a desaprovação do governo supera a aprovação. E a tendência é de deterioração dos indicadores para o governo. Em 30 de junho (data da última pesquisa), 45,9% aprovavam o governo, enquanto 52,3% desaprovavam.

Esses números, infelizmente, não retratam uma mudança de comportamento do eleitorado que superou a “Maldição de Juncker” e pede maior responsabilidade e visão de longo prazo por parte dos governantes. A desaprovação decorre menos de uma exigência de austeridade do que dos efeitos acumulados do próprio populismo. Anos de gastos crescentes resultaram em inflação persistente, juros elevados e crescimento medíocre, de modo que o eleitor pune o governo pela ineficácia de suas políticas, não pela ausência de novos estímulos.

A situação do governo só não está pior por causa de uma oposição que se autossabota — dividida por disputas internas de liderança, incapaz de se unir em torno de uma candidatura competitiva e, sobretudo, carente de um projeto político coerente que ofereça ao eleitor uma alternativa clara para derrotar o atual governo.

No entanto, independentemente do resultado eleitoral de outubro, quem estiver no Planalto no ano que vem terá um dilema difícil de enfrentar. Por um lado, pode-se escolher um caminho de correção da economia, com reformas difíceis que combinem o corte de gastos com o aumento da produtividade. Por outro lado, pode-se optar por um retrocesso institucional, relativizando a autonomia do Banco Central e as regras fiscais do país, fazendo com que a inflação seja o mecanismo de ajuste das contas públicas.

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