O aumento do preço do petróleo não é inflacionário. A reação da política econômica, sim

Por: João Victor da Silva
em 23/03/2026 às 07:00

O aumento do preço dos combustíveis, por si só, não leva a um aumento generalizado de preços na economia.

Por João Victor da Silva

A guerra no Oriente Médio está desorganizando o mercado global de energia. O Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de um quinto da produção de petróleo internacional, tem o trânsito de navios bloqueado desde o início do conflito há três semanas. Com os recentes ataques do Irã às infraestruturas de produção de petróleo e gás em países vizinhos, como o Catar e a Arábia Saudita, o preço do barril de petróleo (Brent) se consolidou acima de 100 dólares.

Inevitavelmente, os efeitos da guerra já começam a se sentir nos postos de combustível ao redor do mundo. No Brasil, desde o início do conflito, o preço do diesel já subiu cerca de 20% e o da gasolina 10%. Esse impacto no preço dos combustíveis ressuscitou, nos noticiários, as discussões sobre a inflação.

Contudo, é precipitado concluir que o aumento dos preços dos combustíveis deve necessariamente levar a um aumento da inflação — ou seja, o aumento generalizado dos preços na economia. Afinal de contas, quando o preço do petróleo sobe, há uma mudança de preço relativo. A energia fica mais cara em relação a outros bens e serviços.

O economista Lutz Kilian, atual Vice-Presidente do Federal Reserve de Dallas, demonstrou essa dinâmica em um estudo clássico publicado na prestigiada revista acadêmica American Economic Review. Kilian constatou que choques de oferta de petróleo tendem a ser recessivos e, por isso mesmo, desinflacionários: ao encarecer a energia, eles comprimem a demanda por outros bens e serviços.

Esse debate suscita, nos mais antigos, as memórias dos choques de petróleo da década de 1970. Naquele momento, as taxas de inflação superaram os dois dígitos, inclusive em economias desenvolvidas como os Estados Unidos, após a Guerra do Yom Kipur (1973) e a Revolução Iraniana (1979). O aumento da inflação não foi resultado direto do aumento do preço do barril de petróleo. Na realidade, os bancos centrais tentaram mitigar os efeitos recessivos desse choque por meio de expansão monetária. Em outras palavras, os bancos centrais injetaram dinheiro na economia para aliviar a dor de curto prazo. No entanto, o resultado foi uma inflação estrutural que levou anos para ser controlada — um cenário muito semelhante ao que experimentamos na sequência da pandemia.

Os bancos centrais precisam ser muito equilibrados nos próximos passos que tomarem. Para o Banco Central do Brasil (Bacen), a missão é ainda mais desafiadora. O Brasil já possui uma política monetária restritiva, em meio à desaceleração da economia e a sinais de estresse no mercado de crédito.  Se o Bacen mantiver a disciplina e as expectativas de inflação permanecerem ancoradas, o choque de Ormuz será um episódio de aperto econômico temporário, em vez de se tornar o gatilho de uma espiral inflacionária.

Vale sempre lembrar que os choques de energia são apenas o gatilho da inflação. A política monetária é a verdadeira munição. Sem ela, o tiro não sai.