Escritório dinamarquês redesenha Centro de Florianópolis; projeto foi entregue nesta quarta-feira

O projeto também dialoga com o novo plano de mobilidade urbana contratado pelo município que deve ter seus primeiros produtos apresentados ainda este ano
Por: redacao
em 18/03/2026 às 17:06 - Atualizado há 41 minutos.
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Projeto desenvolvido em parceria com CDL, ACIF e Laboratório de Urbanismo e Arquitetura foi entregue nesta quarta e traz 70 propostas para qualificar espaços públicos da região. Foto: Divulgação.

O Centro de Florianópolis foi completamente redesenhado por um escritório dinamarquês especializado em urbanismo. A entrega do projeto aconteceu nesta quarta-feira (18) – sob o título “Floripa Centro: Repensando os Espaços Públicos para as Pessoas”, desenvolvido pelo Gehl Architects, que apresenta mais de 70 propostas para transformar a região central da capital. O estudo aponta mudanças como a criação de uma nova praça no entorno do Mercado Público, a implantação de uma zona escolar na Rua Esteves Júnior e a requalificação das conexões entre o Centro e a orla.

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O projeto também dialoga com o novo plano de mobilidade urbana contratado pelo município que deve ter seus primeiros produtos apresentados ainda este ano, reforçando a integração entre planejamento urbano e mobilidade.

Encomendado e financiado pela CDL Florianópolis e pela ACIF, todo o trabalho do escritório dinamarquês teve investimento de R$ 1,2 milhão custeado integralmente pelas entidades e sem uso de recursos públicos, com articulação técnica do Laboratório de Urbanismo e Arquitetura (LUA). 

O material foi apresentado no Teatro Álvaro de Carvalho pelos arquitetos Esben Neander Kristensen e Rute Nieto Ferreira, da Gehl Architects, e entregue ao prefeito de Florianópolis, Topázio Neto (PSD). A partir de agora, caberá ao município avaliar as diretrizes, desenvolver os projetos executivos e buscar recursos para viabilizar a implementação.

O trabalho foi iniciado em setembro de 2025 e se baseia em princípios de mobilidade sustentável, caminhabilidade, valorização da vida urbana e criação de espaços públicos mais seguros, verdes e inclusivos. A proposta adota o conceito de cidade na escala humana, com foco em crianças, idosos e pedestres, promovendo ambientes mais acessíveis, seguros e voltados à convivência.

Ao longo do processo, que envolveu mais de 100 pessoas, foram realizadas análises urbanas acerca do Centro de Florianópolis, levantamentos técnicos e encontros com diferentes grupos locais, incluindo representantes do poder público, entidades, escolas, comerciantes e moradores do Centro. O objetivo foi compreender padrões de circulação, permanência e uso dos espaços públicos na área central.

O estudo também propõe um modelo de implementação gradativa, combinando intervenções estruturais com ações de curto prazo baseadas em urbanismo tático, com soluções de baixo custo e rápida execução, que permitem testar propostas e adaptar o projeto ao longo do tempo.

Praça-jardim no Centro Histórico

Um dos principais eixos do projeto é a transformação da área da Rua Francisco Tolentino e do entorno do Mercado Público em uma nova praça-jardim no Centro Histórico de Florianópolis. Com cerca de 8 mil metros quadrados, o espaço foi concebido como um ambiente urbano multifuncional voltado à permanência de pessoas, à convivência e ao fortalecimento do comércio local.

A proposta prevê que a Rua Francisco Tolentino passe a integrar o espaço da praça, com pavimentos nivelados às calçadas e prioridade para pedestres. O projeto inclui vegetação nativa, superfícies permeáveis e jardins de chuva voltados à gestão das águas pluviais, além de estruturas de sombra, assentos públicos diversificados e iluminação projetada na escala do pedestre. A escolha por espécies nativas dialoga com iniciativas já em curso na cidade, como o programa Viva a Cidade Arborizada, desenvolvido pela CDL, que busca ampliar a presença de áreas verdes e qualificar o ambiente urbano no Centro.

O desenho urbano também prevê espaços flexíveis para diferentes usos ao longo do dia e da semana, incluindo áreas para feiras, eventos culturais e convivência cotidiana. Entre os elementos propostos estão pavilhões gastronômicos, quiosques, fonte interativa de água no solo, áreas de brincar e espaços ampliados para mesas e cadeiras de bares e restaurantes.

Outro ponto sugerido é a reorganização dos pequenos comércios da região, incluindo estruturas hoje ocupadas pelo Camelódromo e por quiosques. A proposta indica a realocação dessas atividades para novas estruturas comerciais qualificadas dentro da própria praça, integrando os negócios ao novo desenho urbano.

 A ideia é ampliar a permanência de pessoas no local, reduzir ilhas de calor e integrar melhor o Mercado à região do TICEN e aos fluxos de pedestres do Centro.

Beira-mar de Florianópolis como sala de estar da cidade

Outro eixo estratégico do projeto é a reconexão entre o Centro e o mar. A proposta sugere transformar a Avenida Beira-Mar Norte em um espaço mais voltado às pessoas, estruturando a orla completa – do Parque Náutico até o CIC – como uma área contínua de convivência e lazer, uma espécie de sala de estar urbana para moradores e visitantes.

O documento apresenta diretrizes para qualificar as travessias, ampliar a segurança viária e fortalecer as conexões entre o Centro e a orla, além de propor novos usos e destinos ao longo da frente urbana. A ideia é valorizar a relação histórica da cidade com o mar e ampliar o uso desses espaços ao longo do dia, integrando mobilidade, lazer e convivência.

Zona escolar com prioridade para crianças

O terceiro eixo do projeto é a requalificação da Rua Esteves Júnior, a partir do conceito de rua para pessoas, com prioridade para crianças, pedestres e a vida cotidiana. A proposta prevê a criação de uma zona escolar em uma das áreas com maior concentração de escolas no Centro de Florianópolis, por onde circulam diariamente mais de 4,5 mil crianças e jovens.

O projeto inclui medidas de acalmamento do tráfego, áreas organizadas de embarque e desembarque escolar, baia específica para ônibus, bicicletário coberto e melhoria da visibilidade nos pontos de parada. Ao longo da rua, o desenho urbano incorpora arborização para sombreamento, pavimentos mais permeáveis e marcações lúdicas no chão, além de pequenos espaços de convivência com bancos, arquibancadas, mesas de jogos e áreas para atividades culturais e recreativas.

A proposta também busca estimular o uso da rua ao longo do dia, criando ambientes que convidem à permanência após o horário escolar, com pequenos quiosques, espaços flexíveis para eventos e áreas de encontro entre estudantes, famílias e moradores. A ideia é transformar a via em um espaço urbano mais seguro e ativo, funcionando não apenas como corredor de circulação, mas como uma rua de bairro com vida cotidiana. 

Protagonismo e potencial econômico

A entrega do projeto à Prefeitura ocorre em meio a uma semana inteira de reuniões institucionais entre os arquitetos da Gehl e representantes do poder público, escolas da região central, entidades empresariais e grupos da sociedade civil, além de um workshop dedicado ao debate de diretrizes urbanas para a orla da Beira-Mar Norte.

“Nós não começamos pelo desenho, mas pelas pessoas. Observamos como a cidade é vivida e ouvimos diferentes grupos para entender que tipo de experiências elas querem ter no dia a dia e como enxergam Florianópolis daqui há algumas décadas. A partir disso, conseguimos transformar dados e percepções em um projeto urbano mais humano, conectado com a realidade e com o futuro da cidade, que tem um potencial gigantesco”, afirma Rute Nieto Ferreira, da Gehl Architects.

Segundo Tatiana Filomeno, diretora executiva do Laboratório de Urbanismo e Arquitetura (LUA), o laboratório teve papel central nessa articulação técnica local do projeto, conectando o conhecimento internacional do escritório dinamarquês com a realidade urbana de Florianópolis.

“O LUA atuou ajudando a traduzir a metodologia da Gehl para o contexto da cidade e promovendo o diálogo com diferentes atores, como poder público, entidades, escolas, comerciantes e moradores do Centro. Esse trabalho permitiu integrar dados, escuta e conhecimento local ao método de análise da vida pública, resultando em diretrizes que dialogam com a identidade da cidade e com a forma como as pessoas realmente usam esses espaços.”

Para o presidente da CDL Florianópolis, Eduardo Koerich, investir em planejamento urbano também é uma forma de fortalecer a vitalidade econômica da cidade.

“O Centro tem um potencial extraordinário e precisa ser tratado como prioridade. Qualificar os espaços públicos, incentivar a caminhabilidade e reconectar a cidade com a água e com a natureza é o que sustenta uma vida urbana mais ativa e uma economia mais dinâmica. Esse é o papel das entidades representativas: provocar, estruturar e viabilizar projetos que ajudem a cidade a avançar. Quando o setor produtivo assume essa responsabilidade, conseguimos sair do discurso e entregar soluções concretas para a sociedade”, afirma.

A mesma visão é compartilhada pela ACIF. Segundo o presidente da entidade, Célio Bernardi, “as cidades que conseguem se desenvolver de forma equilibrada são aquelas que planejam o espaço urbano olhando para as pessoas, para a mobilidade e para a convivência. Nós, como entidades, temos a responsabilidade de provocar esse tipo de reflexão. O papel das instituições é olhar para a cidade de forma coletiva, identificar onde estão os desafios e ajudar a construir caminhos possíveis. Quando reunimos dados, especialistas e a experiência de quem vive o centro todos os dias, conseguimos transformar debate em proposta concreta. O estudo conduzido pelo escritório Gehl traz justamente esse olhar técnico e estruturado sobre como o centro pode evoluir, respeitando sua história e, ao mesmo tempo, respondendo às demandas atuais da população.”

Durante o evento de entrega do projeto, o prefeito Topázio Neto, afirmou que a iniciativa representa uma oportunidade de repensar o Centro com olhar voltado para o futuro.

“São projetos de curto, médio e longo prazo que trazem um plano de desenvolvimento urbanístico para Florianópolis. Nossa preocupação é como a cidade se organiza para crescer e como nós queremos vê-la quando completar 400 anos. Se você melhora os espaços públicos, você dá mais condições de saúde, lazer e boa convivência para a população”, enfatizou. O prefeito ainda  reforçou  que o projeto inicialmente foi pensado para a região central, mas que a longo prazo pode ser replicado em outras áreas da cidade.