
Uma das grandes questões da humanidade sempre foi definir de que forma a sociedade deveria ser governada. Ao longo da história, sucederam-se impérios, monarquias, ditaduras, democracias, chefes, comandantes e diferentes formas de concentração do poder.
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Por razões diversas, as sociedades sempre pareceram buscar alguém, ou alguma estrutura, capaz de conduzir seus destinos. Foi na Grécia antiga, especialmente em Atenas, que surgiu a experiência que daria origem ao conceito de democracia: a ideia de que os cidadãos poderiam participar das decisões sobre o próprio governo. Roma, posteriormente, desenvolveria outras importantes formas de organização política e representação.
Com todas as suas imperfeições, a democracia consolidou-se ao longo dos séculos como uma das principais alternativas de organização das sociedades modernas. Isso, porém, nunca significou que o processo democrático estivesse imune à influência e à manipulação.
Durante muito tempo, a formação da opinião pública esteve concentrada em poucos canais de comunicação. Jornais, rádio e televisão exerciam enorme influência sobre aquilo que as pessoas conheciam, discutiam e, consequentemente, sobre a maneira como interpretavam a realidade.
Em diferentes momentos históricos, governos, grupos econômicos e forças políticas procuraram exercer influência sobre esses meios. A chegada da internet e, principalmente, das redes sociais alterou profundamente essa lógica. A informação deixou de circular apenas de poucos emissores para milhões de receptores.
Cada cidadão passou, em alguma medida, a produzir, divulgar e contestar informações. Surgiram milhares de pequenas fontes de comunicação, capazes de revelar fatos, questionar versões estabelecidas e ampliar enormemente o debate público.
Mas essa liberdade trouxe consigo uma consequência inesperada. Se antes havia uma concentração da informação, hoje existe uma extraordinária fragmentação dela. Verdades, versões, opiniões, interpretações e também informações falsas disputam simultaneamente a atenção das pessoas. E, em vez de necessariamente aproximar posições, essa multiplicidade passou muitas vezes a reforçar convicções já existentes.
Formaram-se verdadeiros universos paralelos de percepção. Pessoas que vivem na mesma cidade, trabalham juntas, frequentam os mesmos lugares e pertencem à mesma sociedade passaram a enxergar o país de maneiras completamente diferentes. Para umas, determinados acontecimentos são evidentes; para outras, simplesmente não existem — ou possuem significado inteiramente distinto.
É justamente aí que surge aquilo que podemos chamar de democracia sob tensão. O conflito político deixa de ocorrer apenas entre candidatos ou partidos e passa a ocupar as relações pessoais, familiares e profissionais. Para alguns, uma eleição tornou-se quase uma guerra existencial. Para outros, continua sendo apenas mais um episódio da vida cotidiana.
Às vésperas das eleições gerais brasileiras de 4 de outubro de 2026, essa realidade se torna ainda mais perceptível. Em Santa Catarina, como em qualquer estado em que determinadas correntes políticas tenham presença eleitoral expressiva, a possibilidade de vitória nacional de um campo político diferente daquele preferido por parcela relevante da população pode ser percebida com inquietação.
Há quem veja consequências econômicas, administrativas e institucionais importantes; há também quem entenda que a alternância de poder é justamente parte natural do regime democrático. É nesse ponto que a democracia contemporânea revela talvez uma de suas maiores contradições.
Ela nunca foi tão aberta à manifestação individual, mas talvez nunca tenha produzido tantas possibilidades de conflito entre indivíduos. A democracia deixou de ser apenas o momento silencioso em que cada cidadão deposita seu voto na urna. Tornou-se uma experiência permanente, diária, intensa e, muitas vezes, emocional. Talvez não estejamos diante de uma democracia mais fraca.
Talvez estejamos diante de uma democracia menos controlável. Uma democracia em que governos, partidos, imprensa, instituições e grupos econômicos já não possuem sozinhos a capacidade de estabelecer aquilo que toda a sociedade deverá pensar. Isso certamente produz excessos, radicalismos e desinformação. Mas produz também fiscalização, diversidade de opiniões e resistência à concentração de poder.
A questão que se apresenta, portanto, não é saber se a democracia continuará produzindo tensão. Ela produzirá. A verdadeira questão é saber se teremos maturidade suficiente para compreender que pessoas profundamente divergentes ainda precisam continuar vivendo juntas no dia seguinte à eleição. Porque talvez esse seja o verdadeiro teste de uma democracia: não a capacidade de eliminar o conflito, mas a capacidade de conviver com ele sem transformar o adversário político em inimigo pessoal.






